Bolos tunados

Conheça o norte-americano Mike Elder, um especialista em carros que ganhou notoriedade na arte em açúcar

Texto Lucie Ferreira

Proprietário da Black Sheep Custom Cakes, Mike Elder é um dos principais nomes da confeitaria artística dos Estados Unidos. Embora o talento como cake designer o tenha tornado campeão no programa de televisão Ultimate Cake Off, o profissional é especialista em carros tunados e já foi piloto de corrida.

Elder esteve em 2011 no Brasil para participar do 5 Concurso Internacional de Confeitaria Artística & Artes em Chocolate, realizado na capital paulista, do qual foi um dos professores e membro do juri. Em entrevista à Cake Design, ele falou sobre a carreira e as tendências para bolos de casamento.

Cake Design: Quando você decidiu que queria ser cake designer?

Mike Elder: Eu tinha uma loja automotiva, de veículos tunados, nos Estados Unidos, e nunca tive a intenção de ser decorador de bolo. Minha mãe tinha uma loja e comecei a ajudar quando ela ficava muito ocupada, algo que não fazia pelo dinheiro, mas para dar assistência. Conforme as pessoas viam meu trabalho, começaram a fazer pedidos e, finalmente, fiquei tão ocupado fazendo isso a ponto de não poder mais ter a loja de carros tunados.

CD: O que é mais gratificante no seu trabalho?

Elder: Eu acho que o melhor desses trabalhos com bolo e açúcar em geral é a celebração, ao contrário do segmento automotivo, no qual você não participa da comemoração com seu cliente. É disso que gosto em meu trabalho.

CD: E quando seu cliente diz que é o bolo mais fantástico que já viu e o elogia?

Elder: Sim, essa é definitivamente a parte recompensadora. É sempre legal, especialmente para mim, pois a gente não faz especificamente aquilo que as pessoas pedem: muitas vezes, elas me deixam livre para criar, então nunca veem o que estou fazendo até a entrega. E é divertido ver a surpresa e a alegria delas.

CD: Quem são os profissionais que o inspiram?

Elder: Essa é difícil. Há muitos artistas de açúcar bons de verdade no mundo inteiro, mas aqueles de que gosto mais não têm medo de fazer tudo a seu próprio modo. Eles vão e executam, mas não do jeito o qual supõe-se que todos façam. Eu gosto de qualquer pessoa que trabalhe como quer, e não precisa ser artista de açúcar.

CD: Quais são as maiores dificuldades para quem está começando a carreira em decoração de bolos?

Elder: Muitas vezes, especialmente quando viajo, noto que quem está aprendendo sobre os materiais que podem ser usados (eu sei que no Brasil é diferente do meu país) tem dificuldade para encontrar aqueles de que gosta. O mais difícil é encontrar aquele material com o qual você consegue trabalhar melhor e talvez nem saiba que já existe.

CD: Então você acredita que isso seja mais difícil do que fazer o próprio modelo?

Elder: Essa parte você consegue apenas aprendendo, seja sozinho ou com alguém que lhe ensine, mas a confiança é difícil. Muito do que faço preciso apenas acreditar ser capaz. E ouço muito de quem está começando “Oh, não consigo”, mas se eu posso, eles podem – precisam apenas tentar. A prática não machuca.

CD: Na sua opinião, qual é a importância das competições de decoração de bolos?

Elder: Eu não gosto de disputas. Mas os eventos são bons porque mesmo que você não ganhe ou não compita, necessariamente, tem a oportunidade de ver os trabalhos dos outros. Eu sou muito competitivo, mas o evento também impulsiona: você vai querer fazer mais e melhor.

CD: Sobre bolos de casamento, quais são as últimas tendências?

Elder: Nos Estados Unidos, a tendência é poder fazer o que você ouse e queira. No último fim de semana antes de vir ao Brasil, tive um bolo de casamento com formato de um caminhão de lixo – e era o bolo de verdade da festa. O casal era proprietário de uma empresa que tinha esses veículos e pediu isso para o bolo. Nós fazemos tudo, desde os estilos mais tradicionais. Mas o principal é: tentamos encorajar as noivas a fazer o que sintam ou desejam.

CD: Em vez de branco, quais cores sugere que para bolos de casamento?

Elder: Eu gosto de tudo, menos branco. Não sou fã de branco puro, e se estou fazendo algo nessa tonalidade prefiro que seja mais off-white e marfim. Gostos de cores, não de muitas diferentes. Se você tem dois tons, pode usá-los em um bolo. Acho que um bolo com verde-maçã e azul-claro fica muito bonito.

CD: Quando você começou?

Elder: Eu tenho feito bolos por diversão durante a maior parte da minha vida, mas, profissionalmente, por cerca de quatro anos. Sou sortudo porque meu cérebro trabalha de maneira tridimensional. Sempre fui escultor, apenas nunca em um bolo – e é a coisa mais difícil para esculpir. Madeira e argila são muito melhores.

CD: Por que flores de açúcar fazem tanto sucesso em bolos de casamento?

Elder: Por muitas razões. Algumas flores reis são venenosas, o que muita gente nem imagina. Mas eu acho que é a reação das pessoas quando percebem que não são de verdade. Quero dizer, até mesmo essas aqui [aponta para as flores de açúcar vencedoras do concurso], você olha para elas e não percebe que não são reais. E o melhor é que pode guardá-las por dez anos e ainda estarão assim.

*Reportagem publicada na revista Cake Design nº 08 (2011) 

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Recriando vidas e obras

Sem pincéis, cavaletes e telas, o cinema dramatiza histórias e simplifica criações artísticas

Texto Lucie Ferreira

Diferentes representações de Van Gogh: do autorretrato aos filmes Sede de Viver, Van Gogh, Vida e Obra de um Gênio e Van Gogh

Durante sua carreira como teórico de filmes, o italiano Ricciotto Canudo (1877-1923) publicou um ensaio no qual estabelecia o cinema como a sétima arte, precedida por música, dança, pintura ,escultura, teatro e literatura. Quase um século após a publicação do texto, feita no mesmo ano da morte do autor, a alcunha permanece quando nos referimos à técnica.

Mas, e quando uma forma de arte, como o cinema, se propõe a representar outra? Ou ainda, a retratar a vida de um artista? “Recontar a trajetória artística de alguém é assumir escolhas que envolvem conceitos estéticos e possibilidades narrativas. Muitas vezes, as cinebiografias tendem a se prender aos dramas pessoais de pintores, escultores etc, como se os acontecimentos pessoais fossem mais relevantes do que o legado histórico deles”, explica a pesquisadora em cinema e diretora de arte Laura Carvalho, de São Paulo, SP.

Devido à ligação estreita entre experiência pessoal e processo artístico, a pesquisadora destaca que realmente existem pintores cuja dimensão trágica de suas vidas é tão importante quanto as obras, como Van Gogh. “Trata-se de uma figura amplamente revista pelo cinema: no peculiar documentário Van Gogh, de Alain Resnais (1948); no melodramático registro de Vicente Minnelli, em Sede de Viver (1956); no lacônico Van Gogh, de Maurice Pialat (1991); na bela homenagem às cores do pintor em Sonhos, de Akira Kurosawa (1990); e ainda no registro de Robert Altman em Van Gogh, Vida e Obra de um Gênio (1990).”

Existem também artistas donos de uma personalidade excêntrica que se destaca tanto quanto suas obras – e o cinema, naturalmente, acaba incorporando essa caracteréstica para exaltar traços polêmicos do personagem, como fez com Dalí, Picaso, Basquiat, Pollock, Caravaggio, entre outros. “Esses artistas tiveram um papel importante no desenvolvimento das artes visuais, pois, de uma maneira ou de outra, foram destruidores, agressivos e criaram modelos de ruptura, mas os filmes não acompanham esses projetos estéticos. Existe um descompasso entre tema e forma fílmica”, ressalta Laura. Ela acredita que o cinema, em especial as cinebiografias, pode aprender muito com as artes visuais, utilizando-se do projeto estético dos artistas para recriar o universo criativo deles.

Além da história

A abordagem emocional e sentimental também leva em consideração o tempo de duração de uma película, que pode influenciar no resultado, ao contrário das biografias, que buscam ser mais objetivas e factuais. “Um filme tem entre uma hora e meia e duas horas para apresentar, desenvolver e dar desfecho a uma história. Por isso, artistas mais trágicos e que tiveram uma vida mais conturbada, como Van Gogh, Basquiat e Frida Kahlo, dão argumentos mais interessantes para películas”, comenta o artista plástico e tradutor Marcelo Nunes, de São Paulo, SP.

Em um livro, por outro lado, mesmo que a vida do artista não tenha tido grandes emoções, o artista plástico acredita ser possível contá-la, pois o biógrafo pode dedicar mais tempo à obra em si, fazendo uma análise crítica, algo que um filme de duas horas não permite. “Sempre cito o exemplo de Paul Cézanne: ele foi um dos artistas mais importantes da virada do século 20 e fundou as bases de todo o Modernismo, mas teve uma vida pacata e sem graça que não daria um filme.”

Além da vida do artista, as cinebiografias se propõem a retratar o momento de criação, muitas vezes romanceado. Porém, o recurso mais comum é o da citação às obras e ao momento no qual são produzidas, como em Caravaggio (1986. direção Derek Jarman) e Pollock (2000, direção Ed Harris). “Há ainda a recriação do conceito de luz dos grandes mestres do barroco, visto em Moça com Brinco de Pérola (2003, direção Peter Webber), uma predileção estética de muitos fotógrafos norte-americanos”, lembra Laura.

Outra interface possível, de acordo com a pesquisadora, é a cor, um campo pouco comentado e estudado. “Pode haver a transposição da paleta de um artista para paleta fílmica, um diálogo interessante, mas limitador quando mal utilizado”. Se usada de maneira simbólica e inserida como integrante da narrativa, a cor engrandece um filme. No entanto, se empregada como um elemento acessório ou supérfluo da imagem (fetiche), a película se torna medíocre.

A cinebiografia Andrei Rublev retrata a vida do pintor de origem russa, enquanto A Ronda da Noite se inspira em um quadro de Rembrandt

As melhores – e as piores

Em meio a tantos filmes dedicados a retratar a vida de pintores, o melhor é priorizar alguns títulos. “Dos grandes clássicos, não tem como fugir de dois: Agonia e Êxtase (1965, direção Carol Reed) e Sede de Viver”, sugere Nunes. O primeiro retrata o trabalho de Michelangelo (Charlton Heston) durante a pintura do teto da Capela Sistina, enquanto o segundo é descrito como “uma cinebiografia apaixonada de Van Gogh, com grandes atuações de Kirk Douglas e Anthony Quinn”. Porém, o artista plástico ressalta serem filmes “excessivamente dramáticos e com uma narrativa um tanto datada”.

Das obras mais recentes, Nunes recomenda Basquiat (1996, direção Julian Schnabel), que inclusive foi dirigido por um artista plástico, Frida (2002, direção Julie Taymor) e Pollock, sendo os dois últimos beneficiados pelas atuações dos protagonistas. Para quem gosta de uma leitura mais livre da vida e da obra de alguns pintores, as sugestões são Caravaggio e A Ronda da Noite (2007, direção Peter Greenaway), inspirado no quadro homônimo de Rembrandt e dirigido por outro ex-artista plástico, Além de Sombras de Goya (2006, direção Milos Forman), que mostra a relação do mestre espanhol com a Inquisição.

Laura, por sua vez, indica O Mistério de Picasso (1956, direção Henri-Georges Clouzot), que “se detém sobre a mítica figura do pintor para também colocar em xeque a criação do artista, expondo o lado racional da criação”; Decameron (1971, direção Pier Paolo Pasolini), filme que recorre às pinturas de Bruegel para reconstruir a vida do europeu comum do final da idade Média, além de homenagear o mestre Giotto; Andrei Rublev (1966, direção Andrei Tarkovsky); e Frida, Natureza Viva (1984, dir Paul Leduc). “Recomendaria obras que escapam um pouco do registro linear e didático. Existe um filme de Jean Cocteau que não é necessariamente uma cinebiogrfafia, pois se trata de um artista que nunca existiu na história da arte. Sangue de um Poeta (1930) dialoga com o Surrealismo para investigar o processo artístico de um escultor e as descobertas decorrentes desse.”

Por outro lado, ambos consideram Moça com Brinco de Pérola uma experiência cinebiográfica frustante. “Na verdade, quase nada se sabe sobre a vida de Johannes Vermeer, e o roteiro foi montado sobre um argumento fictício. Apesar de ter atores excelentes, na minha opinião é vazio e frouxo, só restando mesmo a fotografia e a direção de arte”, argumenta Nunes. Ele também contraindica El Greco (2007, direção Yannis Smaragidis), filme mais caro do cinema grego e que resultou em um “novelão medíocre” muito criticado quando foi exibido na trigésima quarta Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2008.

A pesquisadora inclui na lista Os Amores de Picasso (1996, direção James Ivory) e Klimt (2006, direção Raoul Ruiz). “O sentimento de frustração existe quando não há uma correspondência entre as obras dos artistas e liberdade formal do cinema. Artistas criaram universos dificilmente explorados nas cinebiografias tradicionais”, esclarece.

“Você pode assistir a um filme sobre a vida de determinado artista e se sentir influenciado a ponto de querer seguir aquele caminho. Isso aconteceu comigo vendo livros de arte: observava as pinturas e pensava ‘é isso que quero fazer’. Porém, um artista em início de carreira pode se sentir desencorajado pela vida trágica de Modigliani ou de Egon Schiele, por exemplo. De qualquer forma, tudo que vemos pode nos influenciar de uma forma ou de outra.”

Marcelo Nunes, artista plástico e tradutor

*Reportagem publicada na revista Tela Passo a Passo nº 76 (agosto/setembro) 

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Uma questão de tempo

Ser mãe não é sinônimo de privar-se da vida social. Uma dose de organização ajuda a conciliar a rotina a momentos do casal e encontros com os amigos

Texto Lucie Ferreira

Assim como o corpo e o organismo da mulher sofrem mudanças durante a gestação, depois do nascimento do bebê é a vez da vida social dos pais se adaptar à chegada do mais novo membro. “Priorizamos o filho, o marido, a família e, depois, nós mesmas e os amigos. As amizades são facilitadas ou dificultadas pelas circunstâncias. Ou seja: acabamos construindo laços de amizade com aqueles que convivem mais conosco no dia a dia ou cuja situação é semelhante à nossa, pois entendem melhor essa falta de tempo e a ordem de prioridades”, diz a cirurgiã dentista Maristela Lobo, de São Paulo, SP.

Com a vida mais agitada após ter se tornado mãe de Luiza, a falta de tempo fez com que um encontro de Maristela com as amigas se tornasse mais difícil de acontecer, mas não impossível: ela precisou do importante auxílio da organização. No entanto, alguns casais justificam que a chegada do bebê modificou tanto suas vidas a ponto de não terem tempo para se dedicar à vida social. “Não creio ser válida a afirmação; tudo depende de se organizarem, estabelecendo uma rotina no lar, incluindo o atendimento à criança e, caso houver meios, solicitar a ajuda de babás ou dos avós”, destaca a psicóloga e titular da Academia Paulista de Psicologia, Aidyl M. Q. Pérez-Ramos.

A professora do Mestrado em Psicologia Forense Yara Kuperstein Ingberman, da Universidade Tuiuti do Paraná, de Curitiba, PR, reconhece que um filho pequeno dê muito trabalho aos pais e, inicialmente, há uma “desorganização” na qual não parece haver tempo para outra atividade senão o cuidado para com a criança. “No entanto, com algum esforço, o casal pode, com apoio da rede familiar, organizar-se para outras atividades que não sejam apenas as relacionadas ao filho. Existe a necessidade de se retomar a vida de casal, cujo tempo é diferente para cada um, mas é importante que aconteça.”

Maristela e o marido conseguiram se organizar, apesar de não poderem contar com o apoio de parentes. “Nós precisávamos ficar em casa cuidando da Luiza, pois não temos familiares em São Paulo. Com o tempo, fomos nos organizando com funcionárias para que pudéssemos sair às sextas-feiras à noite e ter um tempo livre para nós.” O fato de sua família morar em outro estado complica um pouco mais para o casal. “Vamos pelo menos duas vezes por ano a Salvador, BA. Nesse período, fazemos esforço para dividir o tempo que temos para que todos os familiares possam nos ver e conviver conosco. É cansativo, mas também prazeroso e vale muito a pena”, admite.

Reclusão, não!

Para Aidyl, casais que se tornam reclusos, deixando de ter vida social após se tornarem pais, “podem sentir-se estressados, mas em compensação manifestam alegria e satisfação pela existência de um bebê no lar”. De acordo com Yara, quando a criança é pequena existe a necessidade em voltar-se totalmente para ela, um comportamento que serve, inclusive, à sobrevivência da espécie. “No entanto, à medida que se torna mais independente, os pais podem retornar ao seu convívio como casal. Quando isso não acontece, é possível que percam a ‘configuração de casal’ (planos em comum, valores compartilhados, afeto entre si) para ficarem apenas no papel de cuidadores que, a longo prazo, pode se tornar insatisfatório para eles enquanto pessoas”, explica.

A psicóloga do Paraná conta ainda que a convivência social permite ao homem compartilhar experiências, aprender novas formas de lidar com situações e exercer os muitos papéis que cada um pode ter nas relações interpessoais. “Para um casal com filhos pequenos é importante a convivência com o mundo social para poder sair do circulo infindável de tarefas e tensões que muitas vezes se estabelece.”

Agora que a filha de Maristela está com 4 anos, a vida social do casal é mais tranquila. “Saímos com os amigos nas quintas ou sexta-feiras, pois nesses dias ela fica em casa com a nossa funcionária e dorme cedo.” Os finais de semana, porém, são dedicados à filha. “Vamos a parques, cinema infantil, shopping, viajamos para a praia, hotel fazenda, levamos a festas infantis… Enfim, se saímos nos fins de semana, certamente estaremos encontrando pais de amiguinhas dela, que também são nossos amigos. Como a Luiza ainda não tem irmãos, cuidamos para proporcionar convivência com outras crianças, já que, naturalmente, ela convive mais com adultos.”

Maristela afirma que deixar de ir a determinados lugares para ficar com Luiza nunca foi angustiante para o casal. Apesar disso, ela diz sentir falta de uma vida social mais ativa. “Sair com as amigas é um programa que me diverte bastante, mas ultimamente não tenho dedicado muito tempo a isso. Não apenas por minha vida ser corrida: minhas amigas também passam por situações semelhantes.”

Auxílio da babá

Alguns pais têm receio em contratar babás para cuidar dos filhos. Para superá-lo e adquirir confiança, Aidyl diz que depende da escolha da profissional e sugere controle e supervisão. “Isso é aconselhável nos dois primeiros anos de vida. Depois, é melhor colocar em uma escola maternal, com poucas crianças nos grupos, para facilitar a atenção individualizada para cada uma.”

Além de considerar a formação da babá escolhida, Yara recomenda observar pequenos sinais que comprovam o bem-estar da criança e sugere sair inicialmente por pouco tempo e, quando voltar, observá-la e se assegurar lentamente da confiança na profissional.

Atualmente, Maristela conta com a ajuda de uma funcionária, que mora com a família de segunda a sábado. “Minha vida seria muito mais corrida se eu não a tivesse para me auxiliar em pequenas tarefas, como dar banho na Luiza, cuidar dela quando saímos e alimentá-la quando não cheguei em casa”, relata. Para as mães que ainda têm receio em deixar a criança com a babá, ela dá a dica: “o comportamento de nossos filhos sobre determinada pessoa é a melhor maneira de medirmos suas ações. Mas é preciso estar sempre atenta. Frequentemente, chego de surpresa em casa, sem avisar, e pergunto à minha filha se foi bem tratada, se está feliz. Nessa idade, ela me conta tudo”.

*Reportagem publicada no Guia da Mamãe 2011

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Biografia não autorizada

Conheça a história e os pioneiros do bolinho pequeno no tamanho e grande no sabor

Texto Lucie Ferreira

Eles são pequenos, delicados, saborosos e vistosos. Quem pensa que o cupcakes são uma invenção contemporânea, está enganado: em 1796, a norte-americana Amelia Simmons indicou no livro American Cookery “um bolo leve para assar em pequenas xícaras”. Portanto, mais de dois séculos antes da série Sex and the City colaborar para tornar a sobremesa uma mania nos Estados Unidos, a receita surgia de modo arcaico.”O cupcake é a distorção de um muffin, que é muito seco, enquanto ele é mais úmido”, comenta o proprietário da Vintage Cupcakes, Gustavo Lacerda. Segundo ele, os bolinhos como conhecemos hoje são uma variação dos fairy cakes ingleses.

No século 18, pequenos bolos assados em porções individuais eram um tanto quanto populares. As receitas evoluíram de bolos de frutas leves, bastante comuns na Inglaterra, conhecidos como queen cakes. De acordo com o site The Food Timeline, existem duas teorias sobre o surgimento do cupcake. A primeira delas é que o nome (em tradução livre, “bolo de xícara”) deriva do meio utilizado para medir a quantidade de ingredientes para fazê-lo, tal qual uma xícara de farinha, uma xícara de manteiga e por aí vai. A segunda explicação defende que receberam esse nome por serem assados em xícaras.

Ambas a teorias são aceitas pelos historiadores de culinária e gastronomia, como o britânico Alan Davidson. Ele menciona na obra The Oxford Companion to Food a receita do White Cup Cake, de Eliza Leslie, como a primeira a ser impressa, em 1828. “Os principais ingredientes são uma xícara de café grande de creme de leite ou leite integral (melhor se estiver coalhado), uma xícara de manteiga, duas xícaras de açúcar e quatro xícaras de farinha. A mistura preparada deve, ser assada em ‘latinhas’”, cita Davidson.

Delícia americana

Considerado pelos norte-americanos uma de suas primeiras contribuições culinárias para o mundo, o cupcake é também uma das mais refinadas. Embora o verdadeiro inventor da receita seja desconhecido – afinal, publicar não é o mesmo que criar –, a guloseima foi patenteada pela Hostess em 1919, ano que marca o final da Primeira Grande Gerra. A empresa, que até hoje fabrica o clássico bolinho, investiu na comercialização de embalagens individuais, contendo um cupcake e, na década de 1950, incluiu o recheio de baunilha na versão clássica de chocolate. Resultado: o novo produto passou a vender 25% mais do que o tradicional.

De acoudo com a autora do livro Crazy about cupcakes, Krystina Castella, de Los Angeles, Estados Unidos, os bolinhos nunca foram tão populares como hoje. “Tradicionalmente, eles têm sido feitos para crianças em sabores básicos. Atualmente, o cupcake se tounou gourmet e é divertido, moderno e glamouroso”, comenta. Nos Estados Unidos, a popularização do doce se reflete nos milhares de blogs dedicados ao assunto e nas confeitarias especializadas espalhadas pelo país.

Muitos dão ao seriado Sex and the City o crédito de tornar os cupcakes uma tendência, como fez com os sapatos de Manolo Blahnik. Tudo por causa de um episódio da terceira temporada, que foi ao ar em 2000, no qual Carie e Miranda resolvem desabafar sobre a vida amorosa e dar uma paradinha na Magnolia Bakery para saborear o doce. Desde então, a confeitaria localizada no número 41 da Bleeker Street, em Nova Iorque, se tornou tão popular que precisou contratar segurança.

Inaugurada em 1996, a Magnolia Bakery foi vendida em 2007 e atualmente conta com seis lojas, inclusive uma em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Embora seja clara a influência da série para o sucesso da confeitaria, que também comercializa bolos, outros experts no assunto apontam o fato de o cupcake ser uma porção individual: isso faz com que pessoas em dieta, por exemplo, tenham um controle maior do que comem. Além disso, não é preciso dividir um bolo de sabor único entre pessoas com preferências diferentes – cada um escolhe a própria sobremesa.

Pegando carona no sucesso da loja nova-iorquina, o casal Candace e Charles Nelson fundou, em 2005, a Sprinkles Cupcakes, considerada a primeira confeitaria só de cupcakes do mundo. A franquia, que já conta com 11 estabelecimentos, tem sua matriz na cidade de Beverly Hills, na Califórnia.

Enquanto isso, no Brasil…

Proprietários da confeitaria Grand Patisserie, em New Milford, no estado norte-americano de Connecticut, Ana Paula e Gustavo Lacerda voltaram ao Brasil com a experiência internacional na bagagem e inauguraram a primeira loja de cupcakes do País: a Vintage Cupcakes. O quiosque inaugural foi aberto em maio de 2009, em Brasília, DF, e atualmente a franquia já conta com 24 pontos localizados em quatro estados, além do Distrito Federal. A previsão é de chegar a 50 lojas até o final de 2011.

Lacerda conta que a Vintage trouxe dos Estados Unidos o conceito de “quanto mais cobertura, melhor”. Porém, adaptou o bolinho para o paladar do brasileiro, substiuindo o buttercream (manteiga batida com açúcar), “presente em 98% dos cupcakes norte-americanos”, por outras opções, como ganache. Por aqui, os produtos da marca são mais altos do que a média nacional, sendo que todos os meses a rede lança uma variedade nova – já criou 118 sabores.

No estado de São Paulo, a Wondercakes é pioneira desde novembro de 2009. Com quatro lojas exclusivas de cupcakes na capital paulista, a administradora Paula Kenan e a chef Marcella Lage pretendem levar a marca para Recife, PE, e Rio de Janeiro, RJ. Porém, com muita cautela para não abrir mão do padrão e da qualidade.

Para trazer a ideia ao Brasil, as sócias também buscaram referências nos Estados Unidos, visitando as famosas Magnolia Bakery, Sprinkles e Kara’s. “A ideia era fazer produtos de primeira, com ingredientes realmente bons, como chocolate belga”, conta Paula. Por isso, ela e Marcella viajaram muito para conhecer o que era feito fora do País. Além dos bolinhos, a arquitetura elegante também teve inspiração internacional. Entretanto, enquanto a rede Sprinkles investe no estilo minimalista, a Wondercakes aposta em uma decoração aconchegante, com itens lúdicos e cores mais fortes.

Algumas receitas foram adaptadas para o gosto do brasileiro. “Agregamos produtos tipicamente nacionais, como brigadeiro e o sabor fubá com goiabada. Já a receita do bolo é tipicamente americana, por exemplo os sabores cenoura, banana e maçã.” A cobertura de buttercream, quando usada, é adaptada ao paladar brasileiro.

Negócio de gente grande

Embora os cupcakes sejam pequenos e remetam a diversão de criança, quem quer ter um negócio especializado deve levá-lo adiante com bastante seriedade. “Muitos encaram como moda. É preciso se especializar e ter a estrutura de uma empresa. Além de entender que, para ter vida longa, o negócio precisa ter organização por trás”, alerta Gustavo, explicando que a Vintage tem um centro de produção em todas as áreas nas quais se instala. “Temos uma estrutura administrativa para dar suporte aos franqueados”, complementa.

E para quem ainda acredita que os bolinhos sejam apenas uma moda passageira no Brasil, Paula dá o recado: “cupcake é um jeitinho diferente de comer um bolo. Foi tendência no passado, mas agora já estabilizou. As pessoas estão mais familiarizadas com esse produto, ele passou a fazer parte do dia a dia da população”.

*Reportagem publicada na Cake Design Cupcakes nº 01

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Da Holanda para o mundo

Conheça a trajetória da cervejaria de Amsterdã que se tornou uma das marcas mais reconhecidas do globo

Texto Lucie Ferreira

A Heineken é pop. Além de a famosa long neck verde poder ser encontrada em (quase) todos os lugares (na balada, no bar, no supermercado, no Rock in Rio), a empresa chegou ao século 21 preparada para se tornar a cervejaria mais internacional do mundo. Detém mais de 200 marcas, empregando cerca de 75 mil pessoas em mais de 140 fábricas espalhadas por mais de 70 países.

Se o presente impressiona pelos números, a história chama a atenção pelas conquistas. E tudo começou em 1864, com a aquisição de uma pequena cervejaria em Amsterdã, na Holanda. Gerard Adriaan Heineken investiu no novo negócio, equipando-o para a produção de uma cerveja de baixa fermentação que fosse mais elegante. O resultado obtido teve grande aceitação, sendo também comercializado nos tradicionais cafés, frequentados por um público diferenciado.

Em busca de aprimoramento, um dos colaboradores da nova empresa, Dr. H. Elion, fez experimentos que levaram à descoberta de uma levedura de linhagem pura, denominada Heineken A-yeast, cujo sabor único permanece há mais de um século. Representada pela estrela vermelha de cinco pontas, não demorou muito para que a marca fosse agraciada com prêmios de qualidade focada em inovações.

Alguns anos após a morte de seu fundador, em 1893, o filho único e herdeiro de Gerhard, Henry Pierre, ficou responsabilizado pelo crescimento da cervejaria. Durante sua gestão, a companhia se tornou uma multinacional, figurando entre as líderes e expandindo o mercado com exportações. A partir da década de 1940, foi a vez de Alfred, filho de Henry Pierre, assumir o cargo. Ele comandou a Heineken até a aposentadoria, em 1989, mas continuou no conselho. Com sua morte, em 2002, a filha Charlene de Carvalho-Heineken manteve a tradição familiar à frente da empresa.

MAIS QUE UMA HERANÇA

A história da Heineken não se resume à série de heranças que colocaram nomes familiares no comando. Do fundador Gerard à bisneta Charlene, o contexto sócio-político e econômico exerceu importante influência na maneira como a companhia foi gerenciada. Afinal, a multinacional europeia atravessou um período marcado por duas grandes guerras (1914-1918 e 1939-1945), depressão econômica (início da década de 1930) e Guerra Fria (1946-91), além da Lei Seca, que fez com que suas cervejas chegassem aos Estados Unidos apenas em 1933.

O expertise em marketing foi fornecido por Alfred Heineken, que o desenvolveu ao trabalhar como promotor de vendas nos Estados Unidos. Esse fato foi primordial para que a companhia se internacionalizasse nas décadas de 1950 e 1960, período no qual expandiu suas raízes para além da Indonésia (antiga colônia holandesa), tornando-se, inclusive, líder de mercado no continente africano.

Porém, a cerveja número um da Holanda era praticamente uma estrangeira na Europa. Para mudar esse cenário, Alfred decidiu iniciar a produção da bebida em conjunto com outros países europeus e investir em aquisições. Foi no final dos anos 1960 que surgiu a estratégia de construir um portfólio caracterizado tanto por marcas predominantemente regionais quanto internacionais. Após a aquisição de cervejarias menores, localizadas em países distintos, como Cingapura, Nigéria, Suriname, Grécia e Bélgica, a empresa incorporou a francesa Albra.

Depois de mais de um século de existência, o ano de 1989 foi decisivo. A companhia havia se tornado a segunda maior do mundo, sendo a Heineken comercializada em mais de 170 países. Sempre se renovando, estava pronta para um crescimento ainda maior na década seguinte, marcada pelo fim da Guerra Fria e pelo colapso do bloco soviético, acontecimento que beneficiou negócios na Hungria e na Polônia, antigas nações comunistas do leste europeu.

No século 21, inúmeras aquisições e negociações ao redor do mundo confirmaram a Heineken como uma das marcas globais mais poderosas. Atualmente, os principais rótulos internacionais da companhia são Heineken e Amstel, mas o grupo também fabrica e comercializa Primus, Birra Moretti, Sagres, Cruzcampo, Foster’s, Strongbow, Bulmer, Newcastle Brown Ale, Zywiec, Ochota, Kingfisher, Tiger, Star, Dos Equis, Tecate e Sol. Além de cerveja, sidra também faz parte do portfólio.

A ALMA DO NEGÓCIO

Um fato irônico na história da Heineken é que seu fundador acreditava na seguinte filosofia: um bom produto é recomendado pelo seu uso. Ou seja, a cervejaria não precisava de propaganda para divulgar-se. Porém, em 1928 a empresa aproveitou os Jogos Olímpicos de Amsterdã para dar início às estratégias publicitárias únicas, que até os dias de hoje fascinam o público. Na ocasião, uma aeronave escreveu um anúncio no céu, chamando a atenção de centenas de pessoas.

Em 1968, a companhia veiculou os primeiros comerciais de TV, em seu país de origem. Atualmente, ela é reconhecida pela maneira bem humorada com a qual leva o nome da marca, em filmes que simpatizam e surpreendem o público. Um exemplo é o vídeo em que um casal apresenta a residência aos amigos: a mulher abre uma porta e alucina as amigas com um closet cheio de sapatos, enquanto o marido leva os colegas ao delírio com seu cômodo-refrigerador abastecido de Heineken. Só na página oficial do YouTube, teve mais de 11 milhões de acessos. Tamanha repercussão se reflete também no Facebook, onde existe até uma página intitulada El tio que se emociona en el anuncio de Heineken (“O tio que se emociona no anúncio da Heineken”), com mais de 185 mil fãs.

Outro comercial querido pelo público é o que traz Jennifer Aniston. Com seu 1,64 m, a moça se estica para pegar as duas últimas long necks de Heineken na prateleira mais alta do supermercado, quando um rapaz se aproxima, a admira e retira as garrafas para si mesmo. E para mostrar a influência da marca na cultura e na música, uma série de filmes publicitários coloca a cerveja como testemunha do surgimento do sinal de paz e amor, do clichê de acender o isqueiro num concerto de rock e do scratching usado por Djs.

A ousadia e a criatividade da mais recente superprodução publicitária, The Entrance, foi reconhecida no Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions 2011, na França. A campanha recebeu quatro prêmios, incluindo o Leão de Ouro pela obra e um Leão de Bronze na divisão de Filmes Interativos. Na mesma edição da premiação, a propaganda The Date levou um Leão de Bronze na categoria Filme.

Além de o marketing apostar nos comerciais de TV e virais na Internet, desde 2005 a empresa leva seu nome ao principal torneio interclubes de futebol do mundo, a Liga dos Campeões (Champions League), promovida pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa). Recentemente, a marca garantiu o patrocínio até o fim da temporada de 2014/2015.

No Brasil, a cervejaria está presente em festivais de música, patrocinando o Rock in Rio e o SWU (Starts With You), realizado em novembro de 2011, em Paulínia, SP. Em breve também estará na edição brasileira do Lollapalooza, em abril de 2012. No esporte, a bola da vez é o rugby: é a patrocinadora oficial das seleções masculina e feminina adultas de Rugby Unions (XV) e Rugby Sevens. Além disso, apoia os principais torneios da modalidade no País (Brasil Sevens, Campeonato Brasileiro Universitário, Campeonato Brasileiro de Primeira Divisão – Super 10 e Campeonato Brasileiro de Segunda Divisão – Copa Brasil).

MERCADO BRASILEIRO

A Heineken foi criada formalmente no Brasil em maio de 2010, depois de adquirir a divisão de cerveja do Grupo Femsa. Porém, a cerveja carro-chefe é comercializada no País desde 1990. Atualmente, conta com oito fábricas no território nacional, localizadas em Manaus, AM; Pacatuba, CE; Feira de Santana, BA; Araraquara, SP; Jacareí, SP; Cuiabá, MT; Ponta Grossa, PR; e Gravataí, RS. Com capacidade de produção anual de 20 milhões de hectolitros, emprega cerca de 2,3 mil funcionários, dos quais mais de 20 são mestres cervejeiros especializados no principal produto da marca.

Além da Heineken, a companhia fabrica no Brasil os rótulos Kaiser, Kaiser Bock, Bavária Clássica, Bavária Premium, Bavária Sem Álcool, Sol, Sol Premium, Gold, Summer Draft, Xingu e Santa Cerva. Importa ainda as cervejas Dos Equis, do México; Amstel Pulse, da Holanda; Birra Moretti, da Itália; Edelweiss, da Áustria; Murphy’s Irish Stout e Murphy’s Irish Red, ambas da Irlanda.

Atualmente, a empresa ocupa a quarta posição no ranking nacional da indústria de cerveja, divulgado pela Nielsen, correspondendo a uma fatia de 8,5% do mercado. No terceiro trimestre de 2011, a cervejaria cresceu 10,1% no País, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

HISTÓRIA DE CINEMA

No final de outubro de 2011, cinemas belgas e holandeses estrearam um filme baseado no sequestro de Alfred Heineken, ocorrido em 1986. Ainda sem previsão de estreia no Brasil, De Heineken ontvoering (algo como O sequestro de Heineken) vai além do crime e mostra a vingança do magnata contra os sequestradores. No papel de Alfred está o ator Rutger Hauer, que ficou imortalizado como o androide Roy Batty em Blade Runner.

*Reportagem publicada no Guia da Cerveja (edição 2012)

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Alto padrão

Caracterizadas pelas matérias-primas selecionadas e pelo limitado volume de produção, as Premium conquistam cada vez mais espaço

Texto Lucie Ferreira

De acordo com o Euromonitor, em 2010 a indústria cervejeira nacional produziu cerca de 12,580 bilhões de litros, dos quais, aproximadamente, 1,103 bilhão de litros foram do tipo Premium Lager (menos de 9% do total). Quase 10% do faturamento do setor, segundo números do mesmo instituto de pesquisas, corresponderam a esse tipo de cerveja no qual as empresas apostam com investimentos massivos em marketing para fisgar o consumidor. Basta observar as campanhas, no Brasil, de duas marcas concorrentes de origem estrangeira que buscam uma valiosa fatia de mercado: a norte-americana Budweiser e a holandesa Heineken.

Porém, embora as ditas cervejas Premium estejam cada vez mais em evidência (na mídia, nas lojas, nos bares), muitos consumidores têm dificuldade de distingui-las de outros rótulos, mais populares e baratos. Afinal, a cultura cervejeira está agregando novos discípulos no início da descoberta de estilos e tipos da bebida, que vão muito além daquela ideia de “quantidade antes da qualidade”.

A diferença entre a Premium e a popular pode ser notada no paladar (e no bolso). Para o especialista em cervejas e editor do site Mestre-Cervejeiro.com, Daniel Wolff, de Curitiba, PR, o preço mais alto da primeira é definido pelo custo agregado do produto, que engloba “o cuidado com a seleção da matéria-prima, a limitação de volume de fabricação, o posicionamento de marca e o conhecimento do produtor”. Ou seja: nem toda Premium vendida como tal é, de fato, uma Premium. Por isso, embora Budweiser, Stella Artois e Heineken sejam comercializadas no Brasil como bebidas diferenciadas, são consideradas populares (inclusive no que diz respeito ao valor) em seus países de origem (Estados Unidos, Bélgica e Holanda, respectivamente).

Portanto, em meio a tantas marcas comercializadas sob o rótulo Premium, bebidas desse tipo devem prezar pela qualidade para se diferenciarem. “O consumidor está muito atento ao que a cerveja oferece, se irá surpreendê-lo ao prová-la e se valerá o dinheiro investido. Vejo muitos novos fabricantes que rotulam seus produtos como Premium ou especiais, mas na hora da degustação, a qualidade fica a desejar”, opina Wolff. Ao prová-la, o especialista dá a dica: “atente-se às riquezas de aromas, sabores e cores das especiais – diferentes daquelas de sabor massificado, que são muito próximas entre si e acabam oferecendo pouco”.

PREMIUM MADE IN BRAZIL

Fabricante de cervejas desde 2001, a Casa Di Conti, localizada em Cândido Mota, SP, investiu em uma bebida com qualidade superior aos demais rótulos da cervejaria. A Conti Premium foi desenvolvida pelo engenheiro cervejeiro belga Bart Borremans e lançada oficialmente em 8 de agosto de 2008, visando agregar mais valor ao portfólio da marca. Trata-se de um produto diferente dos produzidos em massa, como as Pilsen comuns brasileiras, pois utiliza matéria-prima importada e de maior qualidade, resultando em uma Extra mais forte.

De acordo com Borremans, o processo de fabricação da Premium é semelhante ao da Pilsen comum: o que muda mesmo são os ingredientes, de qualidade superior, e o tempo de produção. Para efeito comparativo, a comum demora 14 dias para ficar pronta, enquanto a Premium leva 20 dias, sendo fabricada a cada dois meses devido ao consumo menor em comparação às outras cervejas da marca.

A matéria-prima diferenciada da Premium, caracterizada por ser puro malte, influencia no sabor acentuado, no líquido encorpado, no teor alcoólico maior (5,5%, sendo que as comuns têm entre 4,5% e 4,7%) e na coloração dourada intensa. A temperatura de refrigeração também é diferente: se os consumidores das comuns gostam da cerveja trincando de tão gelada, no caso da Premium é recomendada temperatura em torno de 5ºC, para manter o sabor e as características.

A Pilsen comum, por outro lado, é feita a partir de malte de cevada e algum outro aditivo (cereais não maltados, como arroz e milho), que barateia o custo de produção e resulta em bebidas mais leves. Devido à quantidade maior de malte, o tempo de fermentação, maturação e filtragem de uma Premium é mais longo, demandando um período maior para a produção e o descanso da bebida.

Além do malte, a variedade de lúpulo usado na Conti Premium é o Hallertau Saphir, da região de Hallertau, na Alemanha. Caracterizado por ser aromático e com leves características de amargor, confere aroma suave e agradável à bebida.

De acordo com o diretor de marketing da Conti Bier, Abílio Duarte Neto, a Premium é uma cerveja para quem busca degustar, e não simplesmente beber. O nicho dessa bebida é mais voltado para as classes A e B. “Elas têm mais informação e acesso ao produto, além do alto poder aquisitivo”, diz. Por isso, o fato de ter sido lançada pela Conti no ano de 2008 não é mera coincidência: foi nessa época que o mercado brasileiro testemunhou o aumento da oferta de cervejas importadas e o crescente interesse do consumidor por especiais e diferenciadas.

A média anual da Premium gira em torno de 1% do volume de vendas de todas as marcas da empresa. Desde o lançamento do rótulo, houve aumento de quase 200%, comprovando que muitos consumidores não querem uma bebida apenas para tomar socialmente com os amigos ou acompanhar o churrasco, mas algo além, que promova uma vivência diferente.

PARA TODOS OS GOSTOS

O portfólio de cervejas Premium da Ambev é composto por uma grande variedade de rótulos. Além de nacionais, como Bohemia, Original e Serramalte, a empresa conta com diversas marcas de origem estrangeira, tais quais Stella Artois, Leffe, Franziskaner, Hoegaarden, Quilmes, Norteña, Patrícia e a recém-chegada, mas bastante tradicional na América do Norte, Budweiser. “O público brasileiro está ampliando o interesse pelas especiais. Ele quer vivenciar a experiência cervejeira, conhecer rótulos diferenciados e saber um pouco mais sobre a harmonização dessas bebidas na gastronomia”, comenta a gerente de marketing Premium da Ambev, Stella Brant.

A variedade de rótulos comercializados pela empresa reflete o promissor mercado dessas cervejas. Segundo a companhia, a Bohemia é líder desse segmento e tem mais de 25% de participação, enquanto a Stella Artois está crescendo a taxas expressivas. “Em países similares ao Brasil, as Premium representam entre 15% e 20% do mercado, que tem grande potencial de crescimento no País nos próximos anos. Um dos principais fatores para isso é o aumento da renda da população, da oferta de produtos e a ampliação do conhecimento cervejeiro”, explica Stella.

Por ser uma companhia de capital aberto, a Ambev não divulga valores isolados de vendas. Porém, a empresa afirma que essas cervejas estão tendo boa aceitabilidade pelos consumidores. “A chegada de Budweiser, marca cool internacional presente em mais de 60 países, deve impulsionar ainda mais o setor”, finaliza a gerente de marketing.

INDICAÇÕES DO ESPECIALISTA

O beer sommelier Daniel Wolff destaca suas Premium preferidas. “Atualmente, temos muitos produtores fazendo excelentes cervejas em todo o Brasil. Além disso, estamos com acesso a ótimas marcas importadas.” Dentre as nacionais, o especialista cita a Eisenbahn, privilegiada pelo custo-benefício; Bode Brown, Way e Wäls, que além de criativas oferecem qualidade; e Bamberg e Abadessa, pela fidelidade na reprodução dos estilos. Ele ainda lembra da dedicação e do grande favor que todos os fabricantes nacionais têm feito na disseminação da cultura cervejeira.

Em relação às importadas, Wolff indica a norte-americana Brooklyn, com excelente custo-benefício; a criativa Baladin, da Itália; a holandesa La Trappe, que preza pela tradição e qualidade; e as escocesas Harviesotun e Brewdog, que trazem novidades com bastante ousadia.

*Reportagem publicada no Guia da Cerveja (edição 2012)

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Quase por acaso

Habilidade, talento e garra são algumas das qualidades que podem descrever a carreira da designer floral

Texto Lucie Ferreira

Dona de uma elegância despojada, Simone Carvalho adora contar como descobriu a arte floral. Apesar da modéstia e humildade, foi campeã da 1ª Copa de Arte Floral organizada no Brasil, em Florianópolis, SC, em 1996. Aliás, é na capital catarinense que a profissional vive desde 2001. Ela escolheu a cidade com a intenção de recomeçar a vida, ao lado dos filhos Vinícius, 24 anos, Renan, 19, e Lais, 12. Ao falar sobre eles, não disfarça o orgulho: “tenho três filhos maravilhosos, são meus companheiros.”

Nascida em 1970 em Jataí, GO, e criada em Tangará da serra, MT, a artista floral já esteve em diferentes regiões do Brasil e viajou a outros países. As viagens foram realizadas graças ao empenho e ao desejo em crescer na profissão. Na Espanha, por exemplo, participou da avaliação que a aprovou para se tornar a primeira professora brasileira da Escola Ibero-Americana de Arte Floral (EIAF).

A ideia de trabalhar com flores surgiu como um estalo, no meio da noite, durante a licença-maternidade do segundo filho, quando trabalhava em uma empresa da área de produção de grãos. “Sempre fui muito ativa. Estava em licença e não aguentava  ficar em casa sem fazer nada.” Por incentivo da mãe, desde criança havia feito cursos de pintura, escultura e bordado, e se sentiu imersa na vontade de fazer outra atividade relacionada à arte. “Sempre gostei de lidar com o que é manual, inclusive artesanatos”, justifica.

Simone investiu no projeto. “Montei uma floricultura no fundo do quintal. Na ocasião, só havia uma na cidade.” E, assim, começou a empreitada da futura artista floral em Tangará da Serra. Como muitas escolhas que fazemos na vida, ela precisou lidar com algumas dificuldades e problemas. “Lá não tinha fornecedores. Uma distribuidora de São Paulo mandava as flores em ônibus. Imagine em que estado chegavam”, conta.

A falta de informações, na época, acabou fazendo com que percebesse a importância em compreender o ramo escolhido. “Eu tinha apenas uma noção do que era bonito e feio – só sabia apreciar mesmo. A primeira decoração de casamento foi um desastre. Na minha concepção estava bonito, mas foi uma decepção para a noiva”, relembra.

Virando o jogo

Como alguns acreditam, tudo tem um lado bom – inclusive as experiências mal-sucedidas: Simone decidiu buscar conhecimento e se especializar. Informou-se sobre associações e, em 1994, participou do congresso da Associação Brasileira de Floristas (Abraflor), em Cuiabá, MT. No evento, encontrou designers e se encantou cada vez mais com a arte floral. Com a certeza de que gostaria de  prosseguir na nova profissão, investiu no sonho e aproveitou a bolsa de estudos parcial conquistada para estudar na EIAF, que inaugurava seu curso de design floral no Brasil.

Após a conclusão do curso, em 1996, fez monitoria e se preparou para se tornar professora da EIAF, na qual lecionou durante um ano. Também ministrou aulas no Chile, México e Argentina, além de desenvolver, junto ao Sebrae, módulos de cursos profissionalizantes e um projeto na área de arte floral para deficientes auditivos.

Já em Florianópolis, entre 2001 e 2003, trabalhou com intercâmbio de pedidos no ramo de floricultura, mas sentia a necessidade de estar diariamente em loja. “Precisava do dia a dia, até mesmo para colaborar mais nos treinamentos que dava e enriquecê-los.” Em 2004, inaugurou, na mesma cidade, a empresa Arte Floral, especializada na decoração de diversos eventos. “Oferecemos as mais diferentes tendências e estilos nas decoraçõs, dos clássicos aos modernos e estilizados, sempre se adequando ao perfil do evento e dos clientes.”

Além da loja, que ocupa uma área de 130 m² em Trindade, bairro centralizado do município, a Arte Floral comercializa produtos por meio do site, que em breve vai ficar mais moderno e interativo. “Nosso espaço físico é bem agradável, temos a área de atendimento, oficina floral e, no mezanino, atendimento para as decorações de festas, com estacionamento próprio e fácil acesso”, comenta.

Além do sucesso

Apesar de ter sido a primeira vencedora de uma copa de arte floral realizada no Brasil, aquele que considera o principal acontecimento de sua vida profissional nada tem a ver com palcos ou congressos. “O que mais me sensibilizou na carreira foi a oportunidade que tive de treinar pessoas consideradas sem-tera”, revela. Apesar de trabalharem na produção de flores tropicais, as pupilas (descritas como “senhoras extremamente simples”) desconheciam as exigências e o padrão de qualidade das espécies. O curso de arte floral ministrado por Simone fez com que as alunas compreendessem detalhes considerados fundamentais para quem é do ramo. “Vários arranjos ficaram mais bonitos do que os de muitos floristas. Elas tinham sede de aprender”, relata.

Comprovando experiências próprias, a artista floral acredita que para seguir a carreira são indispensáveis características como humildade, leveza para se abrir a novos conhecimentos e aprendizado constante, inclusive com a vida. No trabalho, ela considera importante que o profissional tenha senso de limites e evite enriquecer muito um arranjo a ponto de deixá-lo poluído por causa do excesso. “Deve-se valorizar o elemento floral em si”, completa. Sobre quem mais a apoiou e incentivou a carreira, ela não hesita em responder: “meus pais me deram mais oportunidades. Seguraram as ondas e tomaram conta dos meus filhos para que eu pudesse estudar e viajar”.

Além de confeccionar belos arranjos, Simone cultiva paixão pela música. “Danço desde xote vanerão a valsa e rock’n'roll”, brinca. Também gosta de cantar e, claro, não dispensa ouvir uma boa música enquanto trabalha, encontrando inspiração na voz de Joe Cocker e na guitarra eletrizante de Eric Clapton. “Não consigo trabalhar sem música, até o tom dela interfere no meu estilo floral”, confessa.

A artista revela que casamentos são os eventos que mais gosta de trabalhar. Ao citar uma cerimônia budista, a qual decorou, a define como “diferente e singela, exigindo muita sensibilidade”. Por nunca ter feito trabalho algum do tipo, tem altas expectativas em relação aos preparativos de um casamento gay que acontecerá no final do ano. Tudo indica que 2011 vai render várias outras histórias pra Simone colecionar, além de experiências para aprender um pouco mais.

*Reportagem publicada na revista Arranjo Floral (abril e maio/2011)

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