O brasileiro e a dor

Pesquisas revelam que a população brasileira mostra-se mais forte diante da dor do que o necessário

Por Lucie Ferreira

Recentemente, dois grandes laboratórios farmacêuticos divulgaram estudos sobre a dor no Brasil, cujos resultados comprovam: o brasileiro tem o costume de suportá-la e adiar a procura por um especialista médico. “A dor é a sensação de que algo está ocorrendo, como uma alteração no organismo”, define o neurocirurgião Erich Fonoff, do Núcleo Avançado da Dor e Distúrbios do Movimento, do Hospital Sírio-Libanês.

A indústria farmacêutica Pfizer encomendou ao Ibope, multinacional brasileira especializada em pesquisas de mídia, mercado e opinião, o estudo Dor no Brasil, com a finalidade de desvendar o tipo de dor que mais acomete os brasileiros. O levantamento entrevistou 1.400 pessoas acima de 16 anos e de todas as classes sociais, em nove regiões metropolitanas do País, e traçou um perfil completo sobre o problema. As cidades escolhidas foram Belém (PA), Recife (PE), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Brasília (DF). Segundo foi apurado, a maioria dos brasileiros considera a dor quase uma rotina em sua vida: 51% dos entrevistados admitiram alguma ocorrência na semana anterior à entrevista, sendo que 58% desse grupo são mulheres.

Na amostragem por idade, a população adulta com mais de 50 anos é a que mais sofre, totalizando 58% dos entrevistados dessa faixa etária. Já 49% dos jovens que têm entre 16 e 24 anos de idade consideram-se resistentes à dor. Ao serem divididas por sexo e idade, as dores experimentadas durante a vida apresentam variações. As mulheres sentem mais dores nas articulações (44%) do que os homens. E ainda: a cólica menstrual tem presença constante na vida de 94% das mulheres que sofrem do mal.

O estudo Epidor, realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com profissionais do Hospital das Clínicas de São Paulo e sob o patrocínio da Janssen-Cilag farmacêutica, compreendeu a avaliação da dor crônica, aquela que persiste por mais de três meses, e constatou que o mal atinge 28,7% da população. Para chegar ao resultado, 2.401 entrevistados maiores de 18 anos e moradores no município de São Paulo responderam a um inquérito telefônico cujo propósito foi o de determinar a prevalência, as causas, a gravidade, a duração e os locais da dor crônica.

Segundo a pesquisa, a dor crônica atinge 20% dos homens e 34% das mulheres. Em pessoas jovens, de 18 a 29 anos, o mal prevalece em 20% delas. Entretanto, a faixa etária de 50 a 59 anos é a que tem maior incidência desse tipo de dor, totalizando 35% da população com essa idade. E, ainda, 32,9% dos entrevistados que sofrem de dor crônica não utilizaram nenhum medicamento nos últimos 12 meses.

Dores mais comuns

Sobre os tipos de dores que já sentiram na vida, 81% dos entrevistados pelo Dor no Brasil responderam cefaleia, enquanto 40% mencionaram lombalgia. Além disso, no último mês, ou ao menos uma vez na vida, 92% dos brasileiros já tiveram dores de cabeça e 64%, nas costas. De acordo com Fonoff, a população brasileira acredita que a dor de cabeça seja comum e só procura ajuda médica quando não consegue tratá-la com medicamento. “Se a dor de cabeça é secundária, pode indicar uma doença grave, como tumor. Quando é persistente e recorrente, é recomendado procurar um profissional de saúde”, destaca. Já a dor nas costas tem motivos muito diferentes. “É uma das dores mais importantes pela infinidade de causas que a provoca”, revela.

Presença constante na vida de 80% das pessoas que sofrem de dor nas costas, o problema é definido como o mais incômodo para 53%, sendo ainda considerada a ocorrência mais grave para 56% dos entrevistados. A lombalgia também é apontada como a mais prejudicial à atividade profissional por 42% dos brasileiros, e atrapalha o sono de 43% dos entrevistados. Perde somente para a cólica renal, que não deixa 44% dormirem. Para 69%, a dor na coluna ocorre há mais de um ano, sendo considerada crônica. Mais uma vez, o fator idade tem influência nas respostas: 70% das pessoas acima dos 50 anos sentem mais dores na coluna. Fonoff explica que, quanto mais avançada a idade, maior é o sedentarismo. “Os músculos ficam destreinados e suscetíveis à dor durante até mesmo atividades simples do dia a dia”, conta.

A pesquisa Dor no Brasil revela, ainda, que 69% das pessoas buscam auxílio médico apenas quando o nível da dor é de moderado a intenso. E 42% daqueles que costumam buscar ajuda diante de uma dor reincidente marcam consulta médica. A recomendação mais importante em casos de prevalência da dor é a procura por profissionais que possam ajudar no diagnóstico e tratamento. Além disso, Fonoff também indica a valorização dos exercícios físicos, um método simples de prevenção, embora em grandes metrópolis, como São Paulo, as pessoas tenham menos tempo e espaços apropriados para essas atividades, sem contar o estresse excessivo do cotidiano, que agrava ainda mais dores como a das costas.

Como as pessoas não são treinadas para reconhecer dores secundárias (aquelas que podem ser o indício de uma doença grave), ao tomar medicamentos para tratá-las pode-se adiar o diagnóstico de uma doença. “Quanto menos avançado for seu estágio, melhor é o prognóstico”, observa Fonoff. A respeito da comercialização de medicamentos sem prescrição médica, o neurocirurgião não vê problema na venda de analgésico simples, desde que a pessoa tenha conhecimento de que é um modo de aliviar a dor sem diagnóstico. Portanto, o balconista pode indicar medicação livre para a dor, mas ressaltar a necessidade da consulta do médico.

*Reportagem publicada no Guia da Farmácia (junho/2009)

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