Cinéfilo incorrigível

Crítico de cinema mais famoso do país, Rubens Ewald Filho conta como elevou a paixão pela sétima arte ao patamar profissional

O jornalista e escritor Rubens Ewald Filho, conhecido pelo público brasileiro como o homem do Oscar, é considerado, no país, o comentarista oficial da mais famosa premiação do cinema mundial. No dia 20 de outubro de 2008, o crítico falou sobre sua carreira e o despertar do interesse pelo cinema em um debate organizado pela 32ª Mostra Internacional de Cinema, que acontece anualmente na cidade de São Paulo.

Filho, que atualmente tem 63 anos de idade e 41 de carreira, descreve sua vida como uma mistura dos filmes A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, e História Sem Fim, de Wolfgang Petersen, devido ao teor fantástico dessas películas. O primeiro porque retrata o encontro entre uma espectadora e seu personagem de cinema favorito; o segundo mostra um garoto que passa a fazer parte da história de um livro que está lendo. Nascido em Santos, no litoral paulista, Filho conserva até os dias de hoje os cadernos que começou a escrever aos dez anos, com as fichas técnicas e as cotações de cada filme a que assistia. Segundo ele, as anotações têm grande importância em sua vida porque sistematizaram a paixão pelo cinema e a capacidade crítica. Os cadernos, aliás, deram origem a um de seus livros, Dicionário de cineastas, cuja primeira edição foi publicada em 1977.

Memória filmográfica

Embora não se recorde dos acontecimentos da infância, o crítico jamais esqueceu o primeiro filme que viu, Tarzan e as Sereias, de Robert Florey. Em clima de nostalgia, Filho recorda que ir ao cinema na década de 1950 tinha um tom cerimonial: quando a sessão estava prestes a começar, os espectadores ficavam em silêncio, uma reverência ao espetáculo. Naquele momento, ele lembra, entrava em um mundo de fantasia onde tudo era possível e com um final feliz, bem diferente da vida real. Ao comparar o cinema clássico ao contemporâneo, Rubens nota a decadência dos valores morais nas obras da atualidade, com uma maciça glorificação da violência, da baixaria e da prostituição. “A crítica, infelizmente, acaba exercendo um papel negativo ao ridicularizar filmes belos que valorizam justamente as questões morais”, declara.

A respeito do cinema brasileiro, o jornalista destaca o cineasta fluminense Walter Lima Júnior, que estreou na direção com o clássico Menino de Engenho, em 1965. Outros filmes nacionais citados pelo crítico são A Grande Cidade, de Cacá Diegues; Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos; e Terra em Transe, de Glauber Rocha. Mas as produções brasileiras da atualidade não são ignoradas por Filho. “Os jovens cineastas brasileiros são responsáveis por trazer vitalidade ao nosso cinema”, conclui.

Prazer em rever

No próximo ano, o profissional celebrará a impressionante marca de 30 mil filmes vistos ao longo da vida. Mas o crítico também gosta de rever uma boa obra cinematográfica, como a italiana Oito e Meio, de Federico Fellini, e 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, além das películas do cineasta sueco Ingmar Bergman, autor de O Sétimo SeloPersona. “Sou uma das poucas pessoas que teve a sorte de transformar um hobby em profissão”, admite.

Paladar visual

Para o crítico, a culinária exerce um papel importante para a compreensão da cultura de uma nação. Ao notar que muitos filmes comprovavam essa teoria e encantavam o público pelo apetite, ele co-escreveu com a jornalista Nilu Lebert o livro O cinema vai à mesa, uma coletânea formada por receitas de pratos representados em obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Cacá Diegues, e Maria Antonieta, de Sofia Coppola. Além da oportunidade de experimentar o lado gastronômico do cinema, o leitor também encontra na obra informações especiais sobre os filmes que o inspiraram.

*Reportagem publicada no blog pessoal Laboratório Cultural (novembro/2008)

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