Uma Iracema não idealizada

Nem só de pornochanchadas viveu o cinema brasileiro da década de 1970

Por Lucie Ferreira

Realizado em 1974 pelos cineastas Orlando Senna e Jorge Bodansky, Iracema, uma transa amazônica é um filme que mistura documentário e ficção. A partir da construção da Transamazônica, o longa-metragem pretende discutir o triunfalismo que vigorava no país à época, retratando dois Brasis: o moderno, das grandes cidades e do desenvolvimento, e o arcaico, da miséria e da desigualdade social. Por um lado, vemos personagens ufanistas discursando sobre a grandiosidade da estrada que pretendia ligar o estado do Acre à Paraíba, o poder da ditadura militar, que tornava o Brasil o país mais desenvolvido da América do Sul, e o milagre econômico que resultou em um crescimento do PIB de cerca de 10% ao ano. Por outro lado, temos a história da jovem Iracema (Edna de Cássia), uma adolescente de origem indígena que recorre à prostituição como forma de escapar de sua realidade miserável.

Iracema vive em um mundo de ilusões. Para ela, não há melhor lugar para viver do que grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Seduzida pelo caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo César Pereio), ela parte com ele em uma viagem que julga ser o começo de uma nova vida. Mas, diferentemente de uma fita romântica norte-americana, em que os sofrimentos da mocinha são recompensados pela chance de um recomeço, Iracema não será acolhida pela cidade grande. Será abandonada por Tião no interior nortista, desolada e sozinha.

Embora seja a personagem principal, Iracema não é o centro da trama. O que os realizadores do filme pretendem desvendar é a forma como o povo brasileiro enxergava o país nesse período, e como ele realmente era. A viagem da garota pelo interior do país cede espaço ao encontro entre personagens ficcionais e reais, que promovem um autêntico debate sobre desenvolvimentismo e esperança de enriquecimento. A crítica social está presente nas imagens das prostitutas, dos desempregados e da população que vive distante da civilização, todos eles constituindo um grupo formado por sonhadores. Nos momentos em que o roteiro está ausente, Iracema torna-se uma produção mais reflexiva, pois os diálogos ocorrem com tanta espontaneidade como em um vídeo-reportagem.

O que inicialmente chama mais a atenção neste filme é o nome da protagonista, um empréstimo do título do famoso romance indianista de José de Alencar, em que a heroína idealizada Iracema é um anagrama de América. Embora a jovem prostituta do longa-metragem não tenha nada de idealizada, ela pode ser compreendida como uma representação das Américas do Sul e Central: subdesenvolvida, explorada e iludida. Deseja crescer e busca os caminhos para isso, mas é impedida a seguir em frente pelos exploradores.

Com o advento do Cinema Novo, a imagem do Brasil alegre e malandro das chanchadas havia sido substituída por um retrato metafórico e crítico, que não poupava idéias brilhantes para que sua mensagem chegasse aos espectadores de forma impactante. Mesmo sendo produzido em um período em que o Cinema Novo agonizava, Iracema consegue retomar algumas idéias do movimento. O resultado é um filme inteligente, comovente e nada apelativo. Afinal, não é preciso apelar para chocar o público: basta a verdade.

Título original: Iracema, uma transa amazônica
Ano: 1974
País: Brasil/ Alemanha/ França
Direção: Orlando Senna e Jorge Bodansky
Com: Edna de Cássia, Paulo César Pereio, Conçeicão Senna, Rose Rodrigues, Fernando Neves.
90 min – Colorido

*Resenha publicada no blog pessoal Laboratório Cultural (outubro/2007)

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema, Resenha, Veículo: Blog pessoal. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s