Sucesso teletransportado

Adaptação moderna de série de aventura espacial vai muito além do visual

Por Lucie Ferreira

Não bastasse ser um dos profissionais mais badalados da TV norte-americana, J.J. Abrams, criador do fenômeno Lost, foi o escolhido para adaptar ao cinema a série-chave da cultura televisiva ocidental de ficção científica: Star Trek. Vale destacar que sua nova empreitada não é voltada exclusivamente para o nicho trekker, pois consegue agradar à platéia ávida por diversão com conteúdo e não familiarizada com o universo criado por Gene Roddenberry, respeitando os principais alicerces da série protagonizada por Capitão Kirk e Spock.

É inquestionável que, mesmo quem sequer assistiu a um episódio do programa de TV sessentista, tem algum tipo de conhecimento sobre as missões da Enterprise e os valores prezados por seus tripulantes: ela foi absorvida pela cultura pop de tal modo que é constantemente citada na sitcom nerd The Big Bang Theory, sem esquecer as inúmeras referências em Heroes e a genial paródia cinematográfica Heróis fora de órbita (Galaxy Quest), de 1999. Levando a popularidade do seriado em consideração, a tarefa de Abrams não era simplesmente captar o espírito trekker com sua experiência e ousadia, mas conferir ação e emoção ao brilhante roteiro de Roberto Orci e Alex Kurtzman.

A história tem início com o nascimento de James T. Kirk, enquanto seu pai salvava a vida da tripulação da USS Kelvin, incluindo a esposa grávida, nos poucos minutos em que esteve no comando da nave atacada por romulanos. Em poucos minutos de projeção, uma das sequências de ação mais vibrantes do filme surge na tela: o pré-adolescente e rebelde Kirk furta o valioso carro do padrasto e o dirige por uma estrada de Iowa ao som de Sabotage, dos Beastie Boys. Enquanto isso, no planeta Vulcano, o jovem Spock é provocado por colegas e revida, com violência, as ofensas feitas a sua mãe, uma humana que, diferentemente da raça do marido, não sobrepõe a lógica aos sentimentos. O encontro entre os principais heróis da história se dará alguns anos depois, já adultos e rivais. Interpretado pelo então desconhecido Chris Pine, Kirk quebra as regras, é explosivo e galanteador. Já Spock, vivido pelo ótimo Zachary Quinto (o vilão Sylar de Heroes), age de forma contida e tem sempre a razão a seu favor.

A trama da adaptação moderna, além de introduzir os principais personagens e mostrar como foi formada a equipe da Enterprise, apresenta uma reviravolta sustentada por viagem no tempo e busca por vingança, elementos que resultam em um roteiro coeso e coerente. O romulano Nero (Eric Bana, irreconhecível) ataca naves da Federação e busca a destruição dos planetas Vulcano e Terra. No entanto, a equipe liderada pelo então Capital Pike (Bruce Greenwood, eficiente como de costume) deverá unir conhecimento, força e audácia para tentar impedir uma guerra de dimensão universal. Além de Spock e Kirk, juntam-se à equipe o nervoso McCoy (Karl Urban), o jovem Chekov (Anton Yelchin), o habilidoso Sulu (John Cho), a bela Uhura (Zoe Saldana) e o recém-chegado Scotty (Simon Pegg). O elenco, aliás, é um dos pontos altos do longa, com a escolha de nomes não tão conhecidos pelo grande público, mas talentosos.

Em um momento ou outro, Star Trek apresenta situações cômicas exageradas – como o plano para colocar Kirk na Enterprise –, em busca de leveza para um enredo não muito simples. Outro exagero é a insistência de Abrams em deixar aparente a sua direção autoral, com reflexos de luz nas imagens a ponto de incomodar, e o velho truque da câmera tremida para causar a impressão de movimento, utilizado de forma desnecessária em algumas sequências.

A comentada participação especial de Leonard Nimoy, o Spock original, que surge na película como a versão futurista de Quinto, confere aqueles que seriam, talvez, os mais belos momentos do filme, com sua voz grave e confiante, e o carisma que marcou sua carreira como o querido personagem.

*Resenha publicada no blog pessoal Laboratório Cultural (maio/2009)

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