Quando duas forças criativas se aliam

A capa de Lonely Avenue destaca: “Ben Folds acrescenta música e melodia às letras de Nick Hornby”.  Líder do finado e excelente trio Ben Folds Five, o multiinstrumentista de estilo despojado e óculos de aros grossos – algo que lhe confere uma aparência de nerd amigável – é uma das mentes mais criativas e audaciosas do pop rock norte-americano. Já o inglês Nick Hornby é um dos escritores mais aclamados da atualidade, autor de obras adaptadas para o cinema, como Alta Fidelidade e Um Grande Garoto. Mas como esses dois sujeitos talentosos decidiram trabalhar juntos em um álbum musical?
Em 2003, Nick Hornby lançou o livro de não-ficção 31 Canções, no qual cita as músicas que marcaram a sua vida. Entre elas, Smoke, do Ben Folds Five. Em entrevista à revista britânica The Word, Ben Folds conta que quando soube da admiração de Hornby por Smoke (e, consequentemente, da citação no livro), enviou um e-mail ao escritor destacando não ser o autor da música, coescrita por sua ex-esposa, Anna Goodman. Foi em uma dessas trocas de mensagem que o compositor fez uma proposta inesperada ao autor inglês: um álbum colaborativo.
Alguns anos se passaram e, finalmente, o projeto se concretizou em 2010. Se você é daqueles que preza CDs com encartes recheados de informações e letras de música, não se decepcionará com a  edição de Lonely Avenue. Há fotos, notas sobre a “razão de existir” de cada letra de Hornby e um curioso e-mail de Ben Folds revelando ao amigo a dificuldade que teve para compor e encaixar a melodia de Belinda. Um primor.
Em se tratando de conteúdo musical – as canções em si -, qualquer fã de Ben Folds reconhece o cuidado com o qual cada nota, melodia e tom foram pensados. Há muito piano, claro, do estilo rocker ao romântico. Já as letras de Nick Hornby são como parábolas. From Above, primeiro single do álbum (assista ao video abaixo), conta uma daquelas histórias óbvias sobre alma gêmeas. A diferença é que, apesar de simples, tanto a letra quanto a música funcionam perfeitamente bem.
Por outro lado, Doc Pomus é uma homenagem ao compositor de mesmo nome. Com Mort Shuman, Pomus escreveu várias canções gravadas por Elvis Presley, e o que Hornby fez foi justamente tornar a biografia que o inspirou (Lonely Avenue, de Alex Halberstadt) acessível. Há ainda uma música inspirada na esposa do escritor (Practical Amanda); outra, em uma poeta norte-americana (Saskia Hamilton); e, ainda, no jovem que engravidou a filha de Sarah Palin em 2008 (Levi Johnston’s Blues).
E com uma canção tão bela como Picture Window, que narra uma noite de ano novo no quarto de um hospital e a inutilidade de ter esperanças num momento como esse, é surpreendente que tenham escolhido justamente A Working Day para abrir o álbum (“I’m a loser, I’m a poser/ Yeah really, it’s over/ I mean it and I quit/ Everything I write is shit”). Ben Folds e Nick Hornby realmente sabem o que e como fazer.



*Resenha publicada no blog pessoal Garota no hall e reproduzida no Paperblog (novembro/2010)
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