A autocrítica da crítica

Em debate realizado em seminário de jornalismo cultural, participantes discutiram os rumos do gênero literário na era da tecnologia digital

Por Lucie Ferreira

No dia 8 de dezembro, teve início a terceira edição do Seminário Internacional Rumos Jornalismo Cultural, realizado no Itaú Cultural, em São Paulo. Denominado Princípios Inconstantes, nome que para o editor de cultura da revista Época, Luís Antônio Giron, denota os princípios do jornalista, que são questionados e derrubados o tempo todo, o seminário busca discutir o jornalismo cultual na era da tecnologia digital.

O debate de abertura, O valor da crítica, teve a mediação do professor e pesquisador Jeder Janotti, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e contou com a presença de Luís Antônio Giron; Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e Stuart Stubbs, jornalista britânico e fundador da revista musical Loud and Quiet. Os participantes traçaram um panorama da crítica cultural contemporânea, destacando as principais características do que a mídia tradicional e os veículos online produzem.

Afinal, o que é crítica? De acordo com Luís Antônio Giron, crítica é “serviço, gênero literário e reflexão sobre fatos culturais e arte”. Sua função pedagógica tem a pretensão de orientar o leitor. Portanto, a crítica não é apenas um meio para o autor expressar a opinião, mas uma maneira de dialogar com o leitor. Para Stuart Stubbs, não é preciso concordar com a crítica, mas entendê-la e participar do debate proposto por ela.

Em sua apresentação, Fabio Malini explicou que a reputação da crítica mudou: a própria rede se tornou o autor. E se antes o crítico se isolava para produzir seus textos, como os intelectuais o faziam, na era da Internet esse isolamento acabou. Outra mudança notada por Malini é a distribuição das críticas, antes concentradas nos editores. Agora, são os próprios links num sistema de busca, como o Google, que ditam a relevância de uma crítica.

Luís Antônio Giron destacou o incremento sofrido pela crítica graças aos blogs e ao Twitter. Apesar de enxergar a importância da crítica online, ele observou que há muita fragmentação e pouco diálogo nesse meio, que acaba sendo utilizado como platafoma de ego. Contudo, o editor ressaltou que a crítica produzida pela mídia tradicional também está em crise.

Ao introduzir a Loud and Quiet à plateia, Stuart Stubbs chamou a atenção para o fato de o primeiro exemplar da publicação independente fundada em 2005 ser de apenas 150 exemplares. Hoje, são 15.000. A renda vem da publicidade e cada revista é vendida a preço de custo. Seu principal diferencial é o espaço oferecido para bandas alternativas, que numa grande publicação teriam poucas linhas. Para ele, embora todos possam ser críticos, nem todos podem ser bons críticos. Por isso, a prática é fundamental para melhorar – e os blogs são ótimas ferramentas para treinar.

Internet x mídia tradicional
Um erro cometido por muitos autores que se aventuram na tentativa de criar um blog de crítica, segundo Stubbs, é linkar para outras páginas sem necessariamente expressar a opinião. Para Giron, existem blogs de crítica bons e ruins. O maior problema dos que se enquadram no segundo grupo é o achismo e a opinião sem embasamento. Ele disse encontrar, em um meio livre como o blog,  reproduções do que a grande imprensa faz. Aos blogs, faltam autocrítica e reflexão sobre seus critérios e compromissos com o leitor. A mídia tradicional, por exemplo, segue critérios como a agenda cultural e a contratação de pessoas com mais credibilidade.

Malini concordou com Giron sobre a repetição, em muitos blogs, daquilo que a grande imprensa publica, inclusive bordões e clichês. Por outro lado, ele enxerga a rede como rascunho para consolidar a carreira de críticos especializados. Ele também observou que o processo de produção da crítica é dependente da Internet, sugerindo uma leitura variada que acompanhe tanto blogs quanto publicações impressas.

*Este texto foi escrito exclusivamente para o Portfolio.

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