Quase por acaso

Habilidade, talento e garra são algumas das qualidades que podem descrever a carreira da designer floral

Texto Lucie Ferreira

Dona de uma elegância despojada, Simone Carvalho adora contar como descobriu a arte floral. Apesar da modéstia e humildade, foi campeã da 1ª Copa de Arte Floral organizada no Brasil, em Florianópolis, SC, em 1996. Aliás, é na capital catarinense que a profissional vive desde 2001. Ela escolheu a cidade com a intenção de recomeçar a vida, ao lado dos filhos Vinícius, 24 anos, Renan, 19, e Lais, 12. Ao falar sobre eles, não disfarça o orgulho: “tenho três filhos maravilhosos, são meus companheiros.”

Nascida em 1970 em Jataí, GO, e criada em Tangará da serra, MT, a artista floral já esteve em diferentes regiões do Brasil e viajou a outros países. As viagens foram realizadas graças ao empenho e ao desejo em crescer na profissão. Na Espanha, por exemplo, participou da avaliação que a aprovou para se tornar a primeira professora brasileira da Escola Ibero-Americana de Arte Floral (EIAF).

A ideia de trabalhar com flores surgiu como um estalo, no meio da noite, durante a licença-maternidade do segundo filho, quando trabalhava em uma empresa da área de produção de grãos. “Sempre fui muito ativa. Estava em licença e não aguentava  ficar em casa sem fazer nada.” Por incentivo da mãe, desde criança havia feito cursos de pintura, escultura e bordado, e se sentiu imersa na vontade de fazer outra atividade relacionada à arte. “Sempre gostei de lidar com o que é manual, inclusive artesanatos”, justifica.

Simone investiu no projeto. “Montei uma floricultura no fundo do quintal. Na ocasião, só havia uma na cidade.” E, assim, começou a empreitada da futura artista floral em Tangará da Serra. Como muitas escolhas que fazemos na vida, ela precisou lidar com algumas dificuldades e problemas. “Lá não tinha fornecedores. Uma distribuidora de São Paulo mandava as flores em ônibus. Imagine em que estado chegavam”, conta.

A falta de informações, na época, acabou fazendo com que percebesse a importância em compreender o ramo escolhido. “Eu tinha apenas uma noção do que era bonito e feio – só sabia apreciar mesmo. A primeira decoração de casamento foi um desastre. Na minha concepção estava bonito, mas foi uma decepção para a noiva”, relembra.

Virando o jogo

Como alguns acreditam, tudo tem um lado bom – inclusive as experiências mal-sucedidas: Simone decidiu buscar conhecimento e se especializar. Informou-se sobre associações e, em 1994, participou do congresso da Associação Brasileira de Floristas (Abraflor), em Cuiabá, MT. No evento, encontrou designers e se encantou cada vez mais com a arte floral. Com a certeza de que gostaria de  prosseguir na nova profissão, investiu no sonho e aproveitou a bolsa de estudos parcial conquistada para estudar na EIAF, que inaugurava seu curso de design floral no Brasil.

Após a conclusão do curso, em 1996, fez monitoria e se preparou para se tornar professora da EIAF, na qual lecionou durante um ano. Também ministrou aulas no Chile, México e Argentina, além de desenvolver, junto ao Sebrae, módulos de cursos profissionalizantes e um projeto na área de arte floral para deficientes auditivos.

Já em Florianópolis, entre 2001 e 2003, trabalhou com intercâmbio de pedidos no ramo de floricultura, mas sentia a necessidade de estar diariamente em loja. “Precisava do dia a dia, até mesmo para colaborar mais nos treinamentos que dava e enriquecê-los.” Em 2004, inaugurou, na mesma cidade, a empresa Arte Floral, especializada na decoração de diversos eventos. “Oferecemos as mais diferentes tendências e estilos nas decoraçõs, dos clássicos aos modernos e estilizados, sempre se adequando ao perfil do evento e dos clientes.”

Além da loja, que ocupa uma área de 130 m² em Trindade, bairro centralizado do município, a Arte Floral comercializa produtos por meio do site, que em breve vai ficar mais moderno e interativo. “Nosso espaço físico é bem agradável, temos a área de atendimento, oficina floral e, no mezanino, atendimento para as decorações de festas, com estacionamento próprio e fácil acesso”, comenta.

Além do sucesso

Apesar de ter sido a primeira vencedora de uma copa de arte floral realizada no Brasil, aquele que considera o principal acontecimento de sua vida profissional nada tem a ver com palcos ou congressos. “O que mais me sensibilizou na carreira foi a oportunidade que tive de treinar pessoas consideradas sem-tera”, revela. Apesar de trabalharem na produção de flores tropicais, as pupilas (descritas como “senhoras extremamente simples”) desconheciam as exigências e o padrão de qualidade das espécies. O curso de arte floral ministrado por Simone fez com que as alunas compreendessem detalhes considerados fundamentais para quem é do ramo. “Vários arranjos ficaram mais bonitos do que os de muitos floristas. Elas tinham sede de aprender”, relata.

Comprovando experiências próprias, a artista floral acredita que para seguir a carreira são indispensáveis características como humildade, leveza para se abrir a novos conhecimentos e aprendizado constante, inclusive com a vida. No trabalho, ela considera importante que o profissional tenha senso de limites e evite enriquecer muito um arranjo a ponto de deixá-lo poluído por causa do excesso. “Deve-se valorizar o elemento floral em si”, completa. Sobre quem mais a apoiou e incentivou a carreira, ela não hesita em responder: “meus pais me deram mais oportunidades. Seguraram as ondas e tomaram conta dos meus filhos para que eu pudesse estudar e viajar”.

Além de confeccionar belos arranjos, Simone cultiva paixão pela música. “Danço desde xote vanerão a valsa e rock’n’roll”, brinca. Também gosta de cantar e, claro, não dispensa ouvir uma boa música enquanto trabalha, encontrando inspiração na voz de Joe Cocker e na guitarra eletrizante de Eric Clapton. “Não consigo trabalhar sem música, até o tom dela interfere no meu estilo floral”, confessa.

A artista revela que casamentos são os eventos que mais gosta de trabalhar. Ao citar uma cerimônia budista, a qual decorou, a define como “diferente e singela, exigindo muita sensibilidade”. Por nunca ter feito trabalho algum do tipo, tem altas expectativas em relação aos preparativos de um casamento gay que acontecerá no final do ano. Tudo indica que 2011 vai render várias outras histórias pra Simone colecionar, além de experiências para aprender um pouco mais.

*Reportagem publicada na revista Arranjo Floral (abril e maio/2011)

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