Alto padrão

Caracterizadas pelas matérias-primas selecionadas e pelo limitado volume de produção, as Premium conquistam cada vez mais espaço

Texto Lucie Ferreira

De acordo com o Euromonitor, em 2010 a indústria cervejeira nacional produziu cerca de 12,580 bilhões de litros, dos quais, aproximadamente, 1,103 bilhão de litros foram do tipo Premium Lager (menos de 9% do total). Quase 10% do faturamento do setor, segundo números do mesmo instituto de pesquisas, corresponderam a esse tipo de cerveja no qual as empresas apostam com investimentos massivos em marketing para fisgar o consumidor. Basta observar as campanhas, no Brasil, de duas marcas concorrentes de origem estrangeira que buscam uma valiosa fatia de mercado: a norte-americana Budweiser e a holandesa Heineken.

Porém, embora as ditas cervejas Premium estejam cada vez mais em evidência (na mídia, nas lojas, nos bares), muitos consumidores têm dificuldade de distingui-las de outros rótulos, mais populares e baratos. Afinal, a cultura cervejeira está agregando novos discípulos no início da descoberta de estilos e tipos da bebida, que vão muito além daquela ideia de “quantidade antes da qualidade”.

A diferença entre a Premium e a popular pode ser notada no paladar (e no bolso). Para o especialista em cervejas e editor do site Mestre-Cervejeiro.com, Daniel Wolff, de Curitiba, PR, o preço mais alto da primeira é definido pelo custo agregado do produto, que engloba “o cuidado com a seleção da matéria-prima, a limitação de volume de fabricação, o posicionamento de marca e o conhecimento do produtor”. Ou seja: nem toda Premium vendida como tal é, de fato, uma Premium. Por isso, embora Budweiser, Stella Artois e Heineken sejam comercializadas no Brasil como bebidas diferenciadas, são consideradas populares (inclusive no que diz respeito ao valor) em seus países de origem (Estados Unidos, Bélgica e Holanda, respectivamente).

Portanto, em meio a tantas marcas comercializadas sob o rótulo Premium, bebidas desse tipo devem prezar pela qualidade para se diferenciarem. “O consumidor está muito atento ao que a cerveja oferece, se irá surpreendê-lo ao prová-la e se valerá o dinheiro investido. Vejo muitos novos fabricantes que rotulam seus produtos como Premium ou especiais, mas na hora da degustação, a qualidade fica a desejar”, opina Wolff. Ao prová-la, o especialista dá a dica: “atente-se às riquezas de aromas, sabores e cores das especiais – diferentes daquelas de sabor massificado, que são muito próximas entre si e acabam oferecendo pouco”.

PREMIUM MADE IN BRAZIL

Fabricante de cervejas desde 2001, a Casa Di Conti, localizada em Cândido Mota, SP, investiu em uma bebida com qualidade superior aos demais rótulos da cervejaria. A Conti Premium foi desenvolvida pelo engenheiro cervejeiro belga Bart Borremans e lançada oficialmente em 8 de agosto de 2008, visando agregar mais valor ao portfólio da marca. Trata-se de um produto diferente dos produzidos em massa, como as Pilsen comuns brasileiras, pois utiliza matéria-prima importada e de maior qualidade, resultando em uma Extra mais forte.

De acordo com Borremans, o processo de fabricação da Premium é semelhante ao da Pilsen comum: o que muda mesmo são os ingredientes, de qualidade superior, e o tempo de produção. Para efeito comparativo, a comum demora 14 dias para ficar pronta, enquanto a Premium leva 20 dias, sendo fabricada a cada dois meses devido ao consumo menor em comparação às outras cervejas da marca.

A matéria-prima diferenciada da Premium, caracterizada por ser puro malte, influencia no sabor acentuado, no líquido encorpado, no teor alcoólico maior (5,5%, sendo que as comuns têm entre 4,5% e 4,7%) e na coloração dourada intensa. A temperatura de refrigeração também é diferente: se os consumidores das comuns gostam da cerveja trincando de tão gelada, no caso da Premium é recomendada temperatura em torno de 5ºC, para manter o sabor e as características.

A Pilsen comum, por outro lado, é feita a partir de malte de cevada e algum outro aditivo (cereais não maltados, como arroz e milho), que barateia o custo de produção e resulta em bebidas mais leves. Devido à quantidade maior de malte, o tempo de fermentação, maturação e filtragem de uma Premium é mais longo, demandando um período maior para a produção e o descanso da bebida.

Além do malte, a variedade de lúpulo usado na Conti Premium é o Hallertau Saphir, da região de Hallertau, na Alemanha. Caracterizado por ser aromático e com leves características de amargor, confere aroma suave e agradável à bebida.

De acordo com o diretor de marketing da Conti Bier, Abílio Duarte Neto, a Premium é uma cerveja para quem busca degustar, e não simplesmente beber. O nicho dessa bebida é mais voltado para as classes A e B. “Elas têm mais informação e acesso ao produto, além do alto poder aquisitivo”, diz. Por isso, o fato de ter sido lançada pela Conti no ano de 2008 não é mera coincidência: foi nessa época que o mercado brasileiro testemunhou o aumento da oferta de cervejas importadas e o crescente interesse do consumidor por especiais e diferenciadas.

A média anual da Premium gira em torno de 1% do volume de vendas de todas as marcas da empresa. Desde o lançamento do rótulo, houve aumento de quase 200%, comprovando que muitos consumidores não querem uma bebida apenas para tomar socialmente com os amigos ou acompanhar o churrasco, mas algo além, que promova uma vivência diferente.

PARA TODOS OS GOSTOS

O portfólio de cervejas Premium da Ambev é composto por uma grande variedade de rótulos. Além de nacionais, como Bohemia, Original e Serramalte, a empresa conta com diversas marcas de origem estrangeira, tais quais Stella Artois, Leffe, Franziskaner, Hoegaarden, Quilmes, Norteña, Patrícia e a recém-chegada, mas bastante tradicional na América do Norte, Budweiser. “O público brasileiro está ampliando o interesse pelas especiais. Ele quer vivenciar a experiência cervejeira, conhecer rótulos diferenciados e saber um pouco mais sobre a harmonização dessas bebidas na gastronomia”, comenta a gerente de marketing Premium da Ambev, Stella Brant.

A variedade de rótulos comercializados pela empresa reflete o promissor mercado dessas cervejas. Segundo a companhia, a Bohemia é líder desse segmento e tem mais de 25% de participação, enquanto a Stella Artois está crescendo a taxas expressivas. “Em países similares ao Brasil, as Premium representam entre 15% e 20% do mercado, que tem grande potencial de crescimento no País nos próximos anos. Um dos principais fatores para isso é o aumento da renda da população, da oferta de produtos e a ampliação do conhecimento cervejeiro”, explica Stella.

Por ser uma companhia de capital aberto, a Ambev não divulga valores isolados de vendas. Porém, a empresa afirma que essas cervejas estão tendo boa aceitabilidade pelos consumidores. “A chegada de Budweiser, marca cool internacional presente em mais de 60 países, deve impulsionar ainda mais o setor”, finaliza a gerente de marketing.

INDICAÇÕES DO ESPECIALISTA

O beer sommelier Daniel Wolff destaca suas Premium preferidas. “Atualmente, temos muitos produtores fazendo excelentes cervejas em todo o Brasil. Além disso, estamos com acesso a ótimas marcas importadas.” Dentre as nacionais, o especialista cita a Eisenbahn, privilegiada pelo custo-benefício; Bode Brown, Way e Wäls, que além de criativas oferecem qualidade; e Bamberg e Abadessa, pela fidelidade na reprodução dos estilos. Ele ainda lembra da dedicação e do grande favor que todos os fabricantes nacionais têm feito na disseminação da cultura cervejeira.

Em relação às importadas, Wolff indica a norte-americana Brooklyn, com excelente custo-benefício; a criativa Baladin, da Itália; a holandesa La Trappe, que preza pela tradição e qualidade; e as escocesas Harviesotun e Brewdog, que trazem novidades com bastante ousadia.

*Reportagem publicada no Guia da Cerveja (edição 2012)

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