Uma questão de tempo

Ser mãe não é sinônimo de privar-se da vida social. Uma dose de organização ajuda a conciliar a rotina a momentos do casal e encontros com os amigos

Texto Lucie Ferreira

Assim como o corpo e o organismo da mulher sofrem mudanças durante a gestação, depois do nascimento do bebê é a vez da vida social dos pais se adaptar à chegada do mais novo membro. “Priorizamos o filho, o marido, a família e, depois, nós mesmas e os amigos. As amizades são facilitadas ou dificultadas pelas circunstâncias. Ou seja: acabamos construindo laços de amizade com aqueles que convivem mais conosco no dia a dia ou cuja situação é semelhante à nossa, pois entendem melhor essa falta de tempo e a ordem de prioridades”, diz a cirurgiã dentista Maristela Lobo, de São Paulo, SP.

Com a vida mais agitada após ter se tornado mãe de Luiza, a falta de tempo fez com que um encontro de Maristela com as amigas se tornasse mais difícil de acontecer, mas não impossível: ela precisou do importante auxílio da organização. No entanto, alguns casais justificam que a chegada do bebê modificou tanto suas vidas a ponto de não terem tempo para se dedicar à vida social. “Não creio ser válida a afirmação; tudo depende de se organizarem, estabelecendo uma rotina no lar, incluindo o atendimento à criança e, caso houver meios, solicitar a ajuda de babás ou dos avós”, destaca a psicóloga e titular da Academia Paulista de Psicologia, Aidyl M. Q. Pérez-Ramos.

A professora do Mestrado em Psicologia Forense Yara Kuperstein Ingberman, da Universidade Tuiuti do Paraná, de Curitiba, PR, reconhece que um filho pequeno dê muito trabalho aos pais e, inicialmente, há uma “desorganização” na qual não parece haver tempo para outra atividade senão o cuidado para com a criança. “No entanto, com algum esforço, o casal pode, com apoio da rede familiar, organizar-se para outras atividades que não sejam apenas as relacionadas ao filho. Existe a necessidade de se retomar a vida de casal, cujo tempo é diferente para cada um, mas é importante que aconteça.”

Maristela e o marido conseguiram se organizar, apesar de não poderem contar com o apoio de parentes. “Nós precisávamos ficar em casa cuidando da Luiza, pois não temos familiares em São Paulo. Com o tempo, fomos nos organizando com funcionárias para que pudéssemos sair às sextas-feiras à noite e ter um tempo livre para nós.” O fato de sua família morar em outro estado complica um pouco mais para o casal. “Vamos pelo menos duas vezes por ano a Salvador, BA. Nesse período, fazemos esforço para dividir o tempo que temos para que todos os familiares possam nos ver e conviver conosco. É cansativo, mas também prazeroso e vale muito a pena”, admite.

Reclusão, não!

Para Aidyl, casais que se tornam reclusos, deixando de ter vida social após se tornarem pais, “podem sentir-se estressados, mas em compensação manifestam alegria e satisfação pela existência de um bebê no lar”. De acordo com Yara, quando a criança é pequena existe a necessidade em voltar-se totalmente para ela, um comportamento que serve, inclusive, à sobrevivência da espécie. “No entanto, à medida que se torna mais independente, os pais podem retornar ao seu convívio como casal. Quando isso não acontece, é possível que percam a ‘configuração de casal’ (planos em comum, valores compartilhados, afeto entre si) para ficarem apenas no papel de cuidadores que, a longo prazo, pode se tornar insatisfatório para eles enquanto pessoas”, explica.

A psicóloga do Paraná conta ainda que a convivência social permite ao homem compartilhar experiências, aprender novas formas de lidar com situações e exercer os muitos papéis que cada um pode ter nas relações interpessoais. “Para um casal com filhos pequenos é importante a convivência com o mundo social para poder sair do circulo infindável de tarefas e tensões que muitas vezes se estabelece.”

Agora que a filha de Maristela está com 4 anos, a vida social do casal é mais tranquila. “Saímos com os amigos nas quintas ou sexta-feiras, pois nesses dias ela fica em casa com a nossa funcionária e dorme cedo.” Os finais de semana, porém, são dedicados à filha. “Vamos a parques, cinema infantil, shopping, viajamos para a praia, hotel fazenda, levamos a festas infantis… Enfim, se saímos nos fins de semana, certamente estaremos encontrando pais de amiguinhas dela, que também são nossos amigos. Como a Luiza ainda não tem irmãos, cuidamos para proporcionar convivência com outras crianças, já que, naturalmente, ela convive mais com adultos.”

Maristela afirma que deixar de ir a determinados lugares para ficar com Luiza nunca foi angustiante para o casal. Apesar disso, ela diz sentir falta de uma vida social mais ativa. “Sair com as amigas é um programa que me diverte bastante, mas ultimamente não tenho dedicado muito tempo a isso. Não apenas por minha vida ser corrida: minhas amigas também passam por situações semelhantes.”

Auxílio da babá

Alguns pais têm receio em contratar babás para cuidar dos filhos. Para superá-lo e adquirir confiança, Aidyl diz que depende da escolha da profissional e sugere controle e supervisão. “Isso é aconselhável nos dois primeiros anos de vida. Depois, é melhor colocar em uma escola maternal, com poucas crianças nos grupos, para facilitar a atenção individualizada para cada uma.”

Além de considerar a formação da babá escolhida, Yara recomenda observar pequenos sinais que comprovam o bem-estar da criança e sugere sair inicialmente por pouco tempo e, quando voltar, observá-la e se assegurar lentamente da confiança na profissional.

Atualmente, Maristela conta com a ajuda de uma funcionária, que mora com a família de segunda a sábado. “Minha vida seria muito mais corrida se eu não a tivesse para me auxiliar em pequenas tarefas, como dar banho na Luiza, cuidar dela quando saímos e alimentá-la quando não cheguei em casa”, relata. Para as mães que ainda têm receio em deixar a criança com a babá, ela dá a dica: “o comportamento de nossos filhos sobre determinada pessoa é a melhor maneira de medirmos suas ações. Mas é preciso estar sempre atenta. Frequentemente, chego de surpresa em casa, sem avisar, e pergunto à minha filha se foi bem tratada, se está feliz. Nessa idade, ela me conta tudo”.

*Reportagem publicada no Guia da Mamãe 2011

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