Recriando vidas e obras

Sem pincéis, cavaletes e telas, o cinema dramatiza histórias e simplifica criações artísticas

Texto Lucie Ferreira

Durante sua carreira como teórico de filmes, o italiano Ricciotto Canudo (1877-1923) publicou um ensaio no qual estabelecia o cinema como a sétima arte, precedida por música, dança, pintura ,escultura, teatro e literatura. Quase um século após a publicação do texto, feita no mesmo ano da morte do autor, a alcunha permanece quando nos referimos à técnica.

Mas, e quando uma forma de arte, como o cinema, se propõe a representar outra? Ou ainda, a retratar a vida de um artista? “Recontar a trajetória artística de alguém é assumir escolhas que envolvem conceitos estéticos e possibilidades narrativas. Muitas vezes, as cinebiografias tendem a se prender aos dramas pessoais de pintores, escultores etc, como se os acontecimentos pessoais fossem mais relevantes do que o legado histórico deles”, explica a pesquisadora em cinema e diretora de arte Laura Carvalho, de São Paulo, SP.

Devido à ligação estreita entre experiência pessoal e processo artístico, a pesquisadora destaca que realmente existem pintores cuja dimensão trágica de suas vidas é tão importante quanto as obras, como Van Gogh. “Trata-se de uma figura amplamente revista pelo cinema: no peculiar documentário Van Gogh, de Alain Resnais (1948); no melodramático registro de Vicente Minnelli, em Sede de Viver (1956); no lacônico Van Gogh, de Maurice Pialat (1991); na bela homenagem às cores do pintor em Sonhos, de Akira Kurosawa (1990); e ainda no registro de Robert Altman em Van Gogh, Vida e Obra de um Gênio (1990).”

Existem também artistas donos de uma personalidade excêntrica que se destaca tanto quanto suas obras – e o cinema, naturalmente, acaba incorporando essa característica para exaltar traços polêmicos do personagem, como fez com Dalí, Picasso, Basquiat, Pollock, Caravaggio, entre outros. “Esses artistas tiveram um papel importante no desenvolvimento das artes visuais, pois, de uma maneira ou de outra, foram destruidores, agressivos e criaram modelos de ruptura, mas os filmes não acompanham esses projetos estéticos. Existe um descompasso entre tema e forma fílmica”, ressalta Laura. Ela acredita que o cinema, em especial as cinebiografias, pode aprender muito com as artes visuais, utilizando-se do projeto estético dos artistas para recriar o universo criativo deles.

Além da história

A abordagem emocional e sentimental também leva em consideração o tempo de duração de uma película, que pode influenciar no resultado, ao contrário das biografias, que buscam ser mais objetivas e factuais. “Um filme tem entre uma hora e meia e duas horas para apresentar, desenvolver e dar desfecho a uma história. Por isso, artistas mais trágicos e que tiveram uma vida mais conturbada, como Van Gogh, Basquiat e Frida Kahlo, dão argumentos mais interessantes para películas”, comenta o artista plástico e tradutor Marcelo Nunes, de São Paulo, SP.

Em um livro, por outro lado, mesmo que a vida do artista não tenha tido grandes emoções, o artista plástico acredita ser possível contá-la, pois o biógrafo pode dedicar mais tempo à obra em si, fazendo uma análise crítica, algo que um filme de duas horas não permite. “Sempre cito o exemplo de Paul Cézanne: ele foi um dos artistas mais importantes da virada do século 20 e fundou as bases de todo o Modernismo, mas teve uma vida pacata e sem graça que não daria um filme.”

Além da vida do artista, as cinebiografias se propõem a retratar o momento de criação, muitas vezes romanceado. Porém, o recurso mais comum é o da citação às obras e ao momento no qual são produzidas, como em Caravaggio (1986, direção Derek Jarman) e Pollock (2000, direção Ed Harris). “Há ainda a recriação do conceito de luz dos grandes mestres do barroco, visto em Moça com Brinco de Pérola (2003, direção Peter Webber), uma predileção estética de muitos fotógrafos norte-americanos”, lembra Laura.

Outra interface possível, de acordo com a pesquisadora, é a cor, um campo pouco comentado e estudado. “Pode haver a transposição da paleta de um artista para paleta fílmica, um diálogo interessante, mas limitador quando mal utilizado”. Se usada de maneira simbólica e inserida como integrante da narrativa, a cor engrandece um filme. No entanto, se empregada como um elemento acessório ou supérfluo da imagem (fetiche), a película se torna medíocre.

As melhores – e as piores

Em meio a tantos filmes dedicados a retratar a vida de pintores, o melhor é priorizar alguns títulos. “Dos grandes clássicos, não tem como fugir de dois: Agonia e Êxtase (1965, direção Carol Reed) e Sede de Viver”, sugere Nunes. O primeiro retrata o trabalho de Michelangelo (Charlton Heston) durante a pintura do teto da Capela Sistina, enquanto o segundo é descrito como “uma cinebiografia apaixonada de Van Gogh, com grandes atuações de Kirk Douglas e Anthony Quinn”. Porém, o artista plástico ressalta serem filmes “excessivamente dramáticos e com uma narrativa um tanto datada”.

Das obras mais recentes, Nunes recomenda Basquiat (1996, direção Julian Schnabel), que inclusive foi dirigido por um artista plástico, Frida (2002, direção Julie Taymor) e Pollock, sendo os dois últimos beneficiados pelas atuações dos protagonistas. Para quem gosta de uma leitura mais livre da vida e da obra de alguns pintores, as sugestões são Caravaggio e A Ronda da Noite (2007, direção Peter Greenaway), inspirado no quadro homônimo de Rembrandt e dirigido por outro ex-artista plástico, Além de Sombras de Goya (2006, direção Milos Forman), que mostra a relação do mestre espanhol com a Inquisição.

Laura, por sua vez, indica O Mistério de Picasso (1956, direção Henri-Georges Clouzot), que “se detém sobre a mítica figura do pintor para também colocar em xeque a criação do artista, expondo o lado racional da criação”; Decameron (1971, direção Pier Paolo Pasolini), filme que recorre às pinturas de Bruegel para reconstruir a vida do europeu comum do final da idade Média, além de homenagear o mestre Giotto; Andrei Rublev (1966, direção Andrei Tarkovsky); e Frida, Natureza Viva (1984, dir Paul Leduc). “Recomendaria obras que escapam um pouco do registro linear e didático. Existe um filme de Jean Cocteau que não é necessariamente uma cinebiogrfafia, pois se trata de um artista que nunca existiu na história da arte. Sangue de um Poeta (1930) dialoga com o Surrealismo para investigar o processo artístico de um escultor e as descobertas decorrentes desse.”

Por outro lado, ambos consideram Moça com Brinco de Pérola uma experiência cinebiográfica frustante. “Na verdade, quase nada se sabe sobre a vida de Johannes Vermeer, e o roteiro foi montado sobre um argumento fictício. Apesar de ter atores excelentes, na minha opinião é vazio e frouxo, só restando mesmo a fotografia e a direção de arte”, argumenta Nunes. Ele também contraindica El Greco (2007, direção Yannis Smaragidis), filme mais caro do cinema grego e que resultou em um “novelão medíocre” muito criticado quando foi exibido na trigésima quarta Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2008.

A pesquisadora inclui na lista Os Amores de Picasso (1996, direção James Ivory) e Klimt (2006, direção Raoul Ruiz). “O sentimento de frustração existe quando não há uma correspondência entre as obras dos artistas e liberdade formal do cinema. Artistas criaram universos dificilmente explorados nas cinebiografias tradicionais”, esclarece.

“Você pode assistir a um filme sobre a vida de determinado artista e se sentir influenciado a ponto de querer seguir aquele caminho. Isso aconteceu comigo vendo livros de arte: observava as pinturas e pensava ‘é isso que quero fazer’. Porém, um artista em início de carreira pode se sentir desencorajado pela vida trágica de Modigliani ou de Egon Schiele, por exemplo. De qualquer forma, tudo que vemos pode nos influenciar de uma forma ou de outra.”

Marcelo Nunes, artista plástico e tradutor

*Reportagem publicada na revista Tela Passo a Passo nº 76 (setembro/outubro de 2011) 

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