Sucesso além do clique

Investir em um portfólio on-line pode abrir portas para a carreira. Saiba como tirar proveito do jeito certo

Texto Lucie Ferreira

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Embora o contexto fosse diferente do empregado nesta reportagem, pode-se emprestar o famoso verso do autor português – com a ressalva de que “viver é preciso” – e adaptá-lo aos dias de hoje, nos quais cada vez mais a internet faz parte do cotidiano. Seja no trabalho ou para lazer, somos todos navegantes nesse mar cibernético: quem não está nele, está literalmente por fora. Aos artistas, um aviso: organizem seus portfólios e preparem-se para embarcar e revelar suas obras nos quatro cantos do Brasil e, quem sabe, do mundo.

Metáforas à parte, o crescimento da websfera transforma a maneira como nos comunicamos e relacionamos. Segundo o Ibope, 73,9 milhões de pessoas tiveram acesso à internet no Brasil em 2010. Com um público desses, investir na criação de sites para divulgar a carreira e obras nada tem a ver com vaidade. “Nos dias de hoje, é imprescindível que o artista (ou qualquer profissional) tenha visibilidade na internet, já que esse meio é utilizado largamente para negócios e afins. O portfólio on-line oferece praticidade de acesso, visualização, atualização e contato, além de ser ecologicamente correto em relação ao papel. Sem mencionar o custo consideravelmente inferior”, explicam os idealizadores da Galeria Grazini Góes, espaço virtual de Rafael Grazini e Leandro Góes.

Com 35 anos de carreira, o artista plástico Erico Santos, de Porto Alegre, RS, estreou seu website em 2005. “Antes disso, tive uma primeira experiência de página na internet, mas achei que deveria fazer um site diferente, tipo revista, no qual eu pudesse interagir, atualizar, escrever e receber a impressão das pessoas. Então, busquei uma empresa especializada para colocar em prática essa ideia”, conta.

A atualização é frequente: sempre que pinta um quadro novo, fotografa e publica na rede. Além disso, ele costuma publicar textos próprios, princialmente sobre arte. “Há várias seções, desde os diversos temas e técnicas, registros meus e de outros escritores, mensagens no Livro de Visitas… Há também o que chamo de Álbum de Fotos, onde seção publicadas as minhas principais atividades profissionais.”

Globalizado, o site de Santos está disponível em cinco idiomas (português, inglês, francês, espanhol e italiano). “A internet é uma grande mídia. Muita coisa aconteceu na minha carreira devido ao site, ainda mais porque pretendi que ele fosse visto além das fronteiras (pelo uso do “.com”). Passei a receber mensagens de todos os cantos do mundo e alguns convites para importantes eventos também fora do Brasil”, ressalta.

Múltiplas ferramentas

A artista plástica Cristina Teles, de São José dos Campos, SP, mantém um site sobre a carreira há cerca de três anos. Ao criá-lo, a ideia era de que o público em geral tivesse acesso ao seu trabalho de maneira mais ampla. “Costumo inserir vídeos dando dicas de pintura, além de ter uma galeria de vendas”, comenta, referindo-se ao Flickr, que permite a fotógrafos e artistas divulgarem suas obras. Para ela, as maiores vantagens de usar páginas de compartilhamento, como o próprio Flickr e o YouTube, reside no fato de não sobrecarregarem o site, além de ampliar divulgação na rede.

O Flickr, aliás, é indicado por Grazini, que sugere aos artistas fazerem parte de galerias on-line. “Ele tem bastante sucesso, apesar de algumas limitações”, avalia. Existe também o Daviantart e a própria Galeria Granzini Góes, cujo propósito é o de abrir espaço a artistas que queiram mostrar suas obras e alavancar a carreira.

Cristina também tira proveito do Facebook, maior rede social do mundo com cerca de 800 milhões de usuários ativos. “Todo ano sorteamos uma obra de arte. As pessoas enviam e-mail com seus dados para se inscreverem. Com isso, estão sempre acessando o site de olho nas novidades.”

Para concretizar o desejo de ter uma página na internet, Cristina contratou um amigo da família e auxiliou na criação. Da ideia à execução final, o projeto demorou, aproximadamente, seis meses. Após colocá-lo no ar, ela diz ter notado diferença em relação à carreira. “Mantê-lo trouxe mais credibilidade ao meu trabalho, abrindo portas para divulgar e vender minhas criações”. Como exemplo, cita o caso da produtora de um programa de televisão local que, ao pesquisar sobre artistas da região, encontrou seu site. Na ocasião, Cristina mostrou seu trabalho ao vivo por meio de um passo a passo. “Confesso que foi uma surpresa para mim. Com essa divulgação, aumentou o número de alunos em meu ateliê”, revela.

Quanto às vendas, ela afirma ter facilitado a visualização das obras comercializadas. “Muitas vezes, casais ou famílias preferem escolher juntos o que comprarão. Pelo site podem analisar com calma e ter ideia do que adquirir”, exemplifica.

Segundo Cristina, as atualizações da página não têm frequência específica, ocorrendo quando surgem novas obras, vídeos e matérias na imprensa. “Mesmo após estar na rede, demorei meses até ter o hábito de atualizar e promover o site, pois desconhecia a dimensão da ferramenta. Há apenas um ano comecei a divulgá-lo, inclusive nos meus cartões de visita.”

Além de ter mudado o layout, a artista insere tópicos conforme julga necessário. “Atualmente, iniciamos uma campanha entre os alunos para criar um espaço no site onde possamos divulgar seus trabalhos, mantendo uma exposição permanente. Todo esse processo exige muito tempo para introduzir os dados, mas vale a pena.”

Concretizando a ideia

Para o artista que pretende manter um portfólio on-line, com obras e informações sobre a carreira, Cristina indica: “mantenha um arquivo de imagens com as obras; contrate alguém de confiança para criar o site; acompanhe de perto as atualizações e não espere retorno imediato, pois o segredo é a perseverança”.

O artista gaúcho conta que contratou a empresa especializada M23 para realizar a empreitada on-line. As cores, o formato e a operacionalidade foram sugeridos por ele, mas o layout inicial, por exemplo, foi apresentado pela empresa. “Evitei itens que demorassem para carregar, como filmes, animações (exceto a da assinatura) e fundo musical. A minha intenção sempre foi facilitar o acesso das pessoas, principalmente daquelas que não são iniciadas em navegação na internet”, diz.

Santos recomenda criar um site que o próprio artista consiga administrar, acrescentando ou excluindo obras e textos para não ficar dependente do webdesigner, pois facilita a atualização frequente, atraindo um público assíduo, que sempre acompanha e aguarda por novidades.

Em relação à navegabilidade, ele sugere um mecanismo objetivo e fácil de acessar, sem que seja pesado e demore muito tempo para carregar. “Muitos pesquisadores desistem antes e passam para outro”, justifica. Para o visual, a dica é utilizar uma cor agradável. “Procurei um amarelo mais baixo, queimado. Usei o fundo preto para ficar neutro em relação ao colorido das obras e para realçá-las também.”

Os profissionais da Galeria Grazini Góes recomendam incluir no site o perfil do artista, com biografia e currículo resumido, além de fotos das obras. “É basicamente, um portfólio on-line, com possibilidade de compra e venda”, resume Góes. Outros itens que merecem consideração: fácil visualização e navegabilidade, sem falta ou excesso de obras ou de informação, e ser esteticamente limpo. Oferecer espaço para que os visitantes comentem, assim como estar relacionado às redes sociais mais acessadas, é de grande auxílio. O contato do artista deve ser acessível, de preferência em todas as páginas.

Grazini observa alguns tópicos que devem ser evitados: contatos pessoais; informações sobre a vida do artista que não tenham a ver com as produções artísticas; obras sem conjunto de trabalho; fotos mal produzidas; propaganda de produtos não relacionados e preços não condizentes com o mercado da arte.

Para não restar dúvida sobre a importância de divulgar as obras na web, Góes destaca: “a maioria de nossos artistas foi encontrada ou entrou em contato conosco via internet e representamos alguns profissionais que já conhecíamos e admirávamos.” Dentre aqueles que conheceu pela rede, cita Antonio Vargas, Carol Paz, Clarissa Campello, Edu Marin, Renato Palmuti, Saramello e Thiago Monteiro.

*Reportagem publicada na revista Tela Passo a Passo nº 77 (novembro/dezembro de 2011)

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