Um ano de arte

Entre telas, esculturas, fotografias e instalações, especialistas e artistas plásticos destacam as exposições de 2011

Texto Lucie Ferreira 

Em 2011, amantes da arte e da fotografia tiveram a oportunidade de conferir inúmeras exposições tanto de artistas renomados quanto daqueles que ainda estão se estabelecendo no disputado mercado de arte, sejam brasileiros ou estrangeiros. Mostras de diferentes escolas artísticas atraíram e encantaram um público diversificado, como a interativa O Mundo Mágico de Escher, realizada nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, DF, Rio de Janeiro, RJ, e São Paulo, SP.

As esculturas da francesa Louise Bourgeois ganhou uma retrospectiva aclamada pela crítica. Intitulada O Retorno do Desejo Proibido, foi exibida no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Dentre os fotógrafos de fama mundial, destaque para mostras do russo Aleksandr Ródtchenko, na Pinacoteca do Estado de São Paulo; do germano-americano Andreas Feininger, no Museu Lasar Segall; e do húngaro-brasileiro Thomaz Farkas, no Instituto Moreira Salles.

Confira a seguir a opinião de artistas e curadores de galerias sobre suas exposições favoritas de 2011.

Arte em fotografia

Eduardo Machado, da Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria, de São Paulo, SP, destaca feiras e exposições realizadas na capital paulista, inclusive as fotográficas. Para ele, a mostra de Felipe Morozini na Zipper Galeria, que recebeu o sugestivo nome Primeira Individual Retrospectiva, foi “impecável”. O salão anual SP-Foto, por outro lado, mostrou a pungência dessa que considera uma nova opção de arte.

Já a Feira Parte, dedicada à arte contemporânea, teve importância para o mercado de arte devido à formação de clientela das galerias, uma vez que o público pôde desfrutar de obras com valores mais baixos. “Acessibilidade ao público é fundamental para educar futuros colecionadores”, justifica.

Das exposições realizadas em sua galeria, cita a do fotógrafo Pablo Di Giulio, com suas imagens de pessoas com os olhos fechados, e a do pintor Celso Orsini. “É um artista com uma trajetória interessante, que realiza trabalhos muito coerentes”, diz.

Jovens e veteranos

Sabina de Libman, da Arte Aplicada, da capital paulista, menciona exposições de artistas que aconteceram na própria galeria: da fotógrafa Fernanda Naman, da escultora Dolly Moreno, que confecciona obras em aço, e de Fernando Velloso, que realiza relevos de parede. “São profissionais com os quais trabalhamos há alguns anos e que, com o passar do tempo, confirmaram a aposta e a confiança depositadas”, comenta. Dolly e Fernanda Naman também expõem nos EUA, enquanto Velloso já teve obras exibidas na França e na Inglaterra.

Outras indicações de Sabina são as mostras do artista uruguaio Torres Garcia e do cartunista norte-americano Saul Steinberg, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, e a retrospectiva da francesa Louise Bourgeois e a exposição de Tomie Ohtake, no Instituto Tomie Ohtake, também em São Paulo, SP.

Referências contemporâneas

Galerista da Emma Thomas, Juliana Freire, de São Paulo, SP, aponta a mostra Em Nome dos Artistas, da Fundação Bienal, como uma surpresa. Trazida da Noruega, a coleção abrangeu ícones da arte atual, ausentes nos acervos brasileiros e que raramente estiveram no país para exposições de grande porte. “O audacioso investimento da Fundação Bienal contribuiu para educar na formação do olhar da arte contemporânea, além de aproximar o Brasil desta referência intensa que é a produção cultural dos Estados Unidos.”

Da Pinacoteca do Estado de São Paulo, cita a exibição Olafur Eliasson: Seu Corpo da Obra, do artista dinamarquês. “Ele consegue transportar o espectador para um lugar entre o estranho e o sublime, mostrando domínio da técnica aliada ao conceito. Seu trabalho é ao mesmo tempo ambicioso e simples, economizando nas formas, mas obtendo resultados extraordinários”, revela.

Como exemplo do equilíbrio entre conceitos políticos, como a situação atual do Chile e a ditadura brasileira, e estéticos, a galerista destaca a exposição de Ivan Navarro e Courtney Smith na paulistana Baró Galeria. “A montagem, feita pelos artistas, estava relacionada com o conceito de expansão dos trabalhos para o espaço expositivo, fazendo dele a obra de arte em si, e incorporando o questionamento do limiar da obra de arte enquanto objeto”.

Ousadia e criatividade

O artista plástico Fernando Ribeiro, de São Paulo, SP, cita quatro eventos. No Rio de Janeiro, RJ, a Rio Arte colaborou com o aumento do conhecimento sobre as artes plásticas no País, mostrando o vigor desse mercado. “Foi muito bem formatada, com intervenções urbanas e oficinas. Espero que venha para ficar”, opina.

Na capital paulista, ele chama a atenção para três exposições. O Projeto Ocupação, no Itaú Cultural, apresentou a obra Rio Oir, de Cildo Meireles. “Rio Oir é um palíndromo, porém não tão simples assim: ‘Rio’ se refere a ‘rir’ e ‘Oir’ é ‘ouvir’ em espanhol. Meireles percorreu o país à procura dos sons que compuseram a obra.”

Na Galeria de Arte do Sesi, a mostra Nelson Leirner 2011-1961 = 50 Anos trouxe a instalação inédita Um, nenhum e cem mil. “Leirner é um dos artistas mais influentes na arte brasileira. Polêmico e controvertido, é daqueles que transformaram a arte no País, além de ter participado da formação de vários artistas da geração de 1980 em diante”, conta Ribeiro, que, por fim, relembra a exposição Em Nome dos Artistas. “Pudemos ver um panorama da arte contemporânea norte-americana, dos ícones Jeff Koons e Cindy Sherman aos mais jovens, terminando com o britânico Damien Hirst”. 

De Porto Alegre a São Paulo

A 8ª Bienal do Mercosul, realizada em Porto Alegre, RS, é um dos destaques de Luísa Ritter, artista plástica gaúcha baseada em São Paulo, SP. Inspirada nas tensões políticas e geográficas, a exposição contou com obras de artistas latino-americanos como o argentino Alberto Lastreto, o peruano Fernando Bryce, o chileno Eugenio Dittborn e o mexicano Edgardo Aragón. “ A mostra apresentou em diversas escalas e se entrelaçou a lugares do centro de Porto Alegre, que despertam interesse arquitetônico, histórico, sociológico e por curiosidade, proporcionando uma aproximação não tradicional”, diz.

Luísa também relembra a exposição Sem Palavras, da pintora Cristina Canale, exibida na Galeria Nara Roesler, na capital paulista. Segundo ela, as obras abrem abismos e vácuos que borbulham na imaginação de quem contempla e retratam mulheres com olhar curioso em cenas que beiram a abstração e a figuração.

Também em São Paulo, o Acervo da Choque trouxe a exposição Papelzinho Picado, de Thais Rivoire, constituída por colagens nas quais imagens oníricas se entrelaçam a paisagens e personagens. “Trata-se de um trabalho minucioso e intenso, tanto pela pesquisa quanto a dedicação para chegar a uma harmonia em todo o caos em que é colocado”, define Luísa. 

Memória e atualidade

O artista plástico Paulo von Poser, de São Paulo, SP, explica que sempre escolhe suas exposições preferidas pelo caráter didático ou educativo, “hábitos de um professor de desenho e amante de museus”. Ele comenta a experiência de um laboratório de restauro que possibilitou acompanhar os trabalhos no painel Gerra e Paz, de Cândido Portinari, exposto no Teatro Municipal e no Palácio Barão Gustavo Capanema (onde fica a Funarte), ambos no Rio de Janeiro, RJ. “Trata-se de um belo exemplo de bom uso dos recursos oficiais da nossa Cultura. Estar com os alunos da Escola da Cidade e estudantes de arquitetura foi um privilégio e uma aula especial”.

Para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), propôs uma ação inédita na mostra Dentro/Fora, com a curadoria de Baixo Ribeiro e Mariana Martins, da Choque Cultural. “A atividade levou mais de 200 vestibulandos a desenhar no espaço do Masp, que teve uma releitura da obra da Lina Bo Bardi por jovens artistas ‘urbanos’ do mundo todo”. Poser destaca ainda a iniciativa do Estúdio Valongo, de Santos, SP, com a primeira Bienal Internacional de Gravura da cidade, que contou com uma grande mostra na Pinacoteca Benedito Calixto, com obras em pequenos formatos, mas de grande variedade e representatividade da produção contemporânea.

A menção honrosa fica para a reestruturação do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. “A montagem inclui e estimula os menos habituados aos espaços museológicos. A Pinacoteca ficou leve e atualizada, uma verdadeira maravilha”, elogia.

*Reportagem publicada na revista Tela Passo a Passo nº 78 (janeiro/fevereiro de 2012)

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