O eleito

Enrolado, na panela ou na bisnaga, saiba mais sobre o doce genuinamente brasileiro com sabor de infância

Texto Lucie Ferreira

Embora o brigadeiro seja um doce campeão para o paladar do brasileiro, estando presente em comemorações distintas, de festas infantis a celebrações de casamento, a origem de seu nome é atribuída a uma candidato à presidência do Brasil que foi derrotado em duas eleições seguidas: Eduardo Gomes (1896-1981). Patrono da Força Aérea Brasileira, foi promovido a brigadeiro em 1941 e, quatro anos depois, concorreu a presidente, perdendo para outro militar, Gaspar Dutra. Em 1950, foi a vez de Getúlio Vargas levar a maioria dos votos.

O motivo da inspiração para o nome da guloseima é creditado às eleitoras que, embaladas pelo slogan “vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”, faziam o quitute e ofereciam nas festas. Ao servi-lo, era apresentado como “o preferido do brigadeiro”. E a alcunha pegou em quase todo o País – a exceção é o Rio Grande do Sul, onde é chamado de negrinho. “Atualmente, o nome ‘brigadeiro’ é bastante conhecido no Estado, devido ao docinho estar na ‘moda’”, destaca a sócio-proprietária da Brig’s Atelier de Brigadeiro, Déborah Bitencourt, de Porto Alegre, RS.

Entretanto, a origem da receita do brigadeiro é um mistério, De acordo com o livro O Doce Brasileiro, do acervo culinário Nestlé, acredita-se que a guloseima tenha sido criada em São Paulo, entre os anos 1920 e 1930. O argumento é válido, pois, quando surgiu, seus principais ingredientes eram feitos no Estado. A primeira fábrica da Nestlé no Brasil foi inaugurada em 1921, em Araras, SP, sendo um de seus principais produtos o Leite Moça.

A chef pâtissière Juliana Motter, proprietária da Maria Brigadeiro, conta que a receita tradicional de sua avó Ignês, que inclusive serviu de base para as criações de brigadeiro gourmet da loja, utiliza leite condensado caseiro. Porém, como ele é mais rústico e forma “pelotinhas”, ela opta pelo industrial, encontrado em embalagens grandes de saco de confeiteiro.

Pioneira global

Inaugurada em 2007, a Maria Brigadeiro é a pioneira em brigadeiros gourmet no Brasil e no mundo, já que se trata de um quitute tipicamente nacional. O sucesso da marca resultou em O Livro do Brigadeiro, publicado pela Panda Books. Como já havia trabalhado durante anos como repórter e editora, Juliana escreveu a obra em dois meses, na cozinha do ateliê, ao lado das panelas. Até hoje guarda o manuscrito salpicado de massa de brigadeiro.

A ideia de criar um novo segmento foi motivada pelo pensamento “todo mundo gosta de brigadeiro. A questão é ajustar a receita”. A clientela começou a se formar graças ao marketing do boca-a-boca: as pessoas provavam, perguntavam e encomendavam. “Não tinha a pretensão de abrir a loja, mas sentia que os brigadeiros eram subestimados. Por isso, queria criar uma percepção diferenciada deles, que até então eram estigmatizados como doces de criança.”

A proposta de criar sabores que fugiam da receita tradicional era para difundir a cultura do brigadeiro gourmet e mostrar sua versatilidade. Atualmente, a Maria Brigadeiro oferece 40 sabores, sendo os favoritos o tradicional, o de cachaça artesanal, o de pistache, o noir (com 70% de cacau), o de avelã e o de chocolate branco. Em média, são vendidos de 3 a 5 mil brigadeiros por dia, sendo os períodos do Natal e da Páscoa os campeões de consumo.

O quitute deve ganhar em breve um sabor feito especialmente para o público vegano, que não consome alimentos à base de leite e derivados. E como a gastronomia é uma arte de experimentação de novas receitas, tanto na cozinha quanto na mesa, Juliana revela os sabores de brigadeiro mais complexos de serem criados: os ácidos, sejam com frutas cítricas ou bebidas, pois ficam mais desnaturados e têm a consistência alterada por causa da desintegração das proteínas do leite.

Para quem deseja transformar o dom em negócio, ela recomenda respeitar as características do brigadeiro, usando ingredientes da melhor qualidade e preparando doces uniformes, além de vendê-los frescos, sem esquecer o lado criativo. “Observo cópias daquilo que a gente cria; há muitas réplicas do que já existe”, nota, acrescentando ser preciso inovar para o quitute se estabelecer como um mercado sólido.

Sabor gaúcho

Inaugurada em outubro de 2009 em Porto Alegre, RS, a Brig’s Atelier de Brigadeiro é a primeira doceria do estado especializada na guloseima. “A ideia surgiu quando fizemos a festa de aniversário de um do ano do meu filho. Eu e minha mãe e sócia fizemos 3 mil brigadeiros de vários sabores e, desde então, a ideia foi sendo alimentada”, conta Déborah.

Segundo ela, inicialmente a loja oferecia 37 tipos de brigadeiro. Atualmente são 57. “Pesquisamos novos sabores e recebemos receitas de clientes que são fãs do nosso produto. Optamos por utilizar matéria-prima complemente nacional, pois não queremos tirar do brigadeiro aquilo a que nos remete: a infância.”

Em média, a Brig’s faz 30 mil brigadeiros por mês, sem contar os de copinho e bisnaga, fornecendo os quitutes para buffets de festas infantis e montando mesas para casamentos e eventos. Os sabores mais pedidos são tradicional, branquinho, bicolor, doce de leite com coco, nozes, avelã, limão, cappuccino e 70% amargo. Também oferece variedades exóticas, com geleia de pimenta e de phisalis, gengibre e gergelim.

E comprovando que o brigadeiro também está conquistando o paladar estrangeiro. Déborah conta a história do norte-americano que se apaixonou pela guloseima: casado com a filha de uma cliente, ele conheceu o doce durante uma visita ao Brasil “Todo dia vinha comprá-los. E agora, sempre que a sogra vai visitá-los, leva os brigadeiros de presente, nas versões para comer de colher. E os amigos americanos adoram, dá até briga”, brinca.

*Reportagem publicada no Guia Gourmet Brigadeiros nº 01 (2011)

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