Esplendor renascentista

Com quase 500 anos de história, os jardins do castelo de Villandry passaram por inúmeras modificações ao longo dos séculos

Texto Lucie Ferreira

Conhecido como o Jardim da França e Berço da Língua Francesa, o Vale do Loire fica na região central do país e é notável pelos vinhedos e castelos. Um deles, batizado de Château de Villandry, é o último dos grandes palácios erguidos no território durante o Renascimento, sendo finalizado em 1536. O responsável pela construção, Jean Le Breton, foi Ministro das Finanças do rei Francisco I e escolheu o local pelo valor histórico: foi ali que o rei Henrique II da Inglaterra admitiu derrota diante do rei Felipe Augusto da França, assinando o tratado conhecido como Paz de Colombiers, em 1189.

A arquitetura avant-garde do castelo disputa atenção com a harmonia entre natureza e rochas, com destaque para os jardins de beleza ímpar. Ainda na época de Breton, o paisagismo revelava seu diferencial: enquanto fortalezas feudais davam lugar a elegantes castelos, os antigos jardins cercados e utilitários foram substituídos por composições paisagísticas ornamentais. Assim, era estabelecida a transição entre casa e natureza local.

Em 1754, o Marquês de Castellane adquiriu o Château de Villandry e fez alterações no palácio e nos jardins. Apreciador do neoclassicismo, Castellane atualizou o paisagismo, ampliando o terreno e desenhando-o como um jardim formal, com lago ornamental, canteiros de flores, estufas típicas da época (orangeries), terraços e anexos.

Após passar por diversos proprietários, no início do século 20 o castelo e seus jardins encantaram o médico Joachim Carvallo e a esposa Ann Coleman, que optaram por restaurá-lo e devolver suas características renascentistas. Em 1920, o Château de Villandry passou a ser aberto ao público. Atualmente, pertence a Henri Carvallo, bisneto de Ann e Joachim.

De volta às raízes

Os diferentes períodos vivenciados pelo local tiveram impacto nos estilos dos jardins, que já foram formais e românticos. Quando Carvallo reformou o palácio e percebeu que as composições paisagísticas destoavam da arquitetura renascentista, recorreu a pesquisas de cunho arqueológico e literário para descobrir como adequá-las à época durante a qual foram concebidas.

Para que não se tornassem apenas réplicas, os jardins foram reinventados de forma a retornar às origens renascentistas, do layout às variedades vegetais. Livros de Dom Michel Germain e Jacques I Androuet du Cerceau serviram de inspiração; o paisagista Javier de Winthuysen e o pintor Antonio Lozano desenharam os espaços das cruzes e do amor, enquanto o da música levou a assinatura do próprio Carvallo.

Composições temáticas

O Jardim Ornamental ganhou dois espaços, sendo o primeiro inspirado no amor e desenhado por Lozano e Winthysen. O segundo é uma criação de Carvallo e contém simbolismos que evocam a música. Mais à frente, o Jardim de Água é um boulingrin com a dupla função de ser ornamental e servir de reservatório para a rega de jardins.

A Horta Ornamental é considerada ponto alto do Villandry. Composta por nove áreas do mesmo tamanho, cada uma tem motivo geométrico diferente, formado por hortaliças e flores. A origem dessa composição é medieval e remonta da época na qual monges criavam as hortas dos monastérios com formas geométricas, acrescentando rosas (Rosaceae) para serem utilizadas na decoração de estátuas da Virgem Maria. O Renascimento italiano inspirou elementos decorativos como fontes, canteiros e treliças, transformando o jardim utilitário em ornamental.

Próximo à Horta Ornamental, o Jardim de Ervas é dedicado a cerca de 30 variedades, dentre elas aromáticas, culinárias e medicinais. As plantas são cultivadas em canteiros circulares, simbolizando a eternidade, enquanto as intersecções dos caminhos formam cruzes.

O Jardim do Sol não continha um jardim até 2008, quando foi inaugurado. Baseado em design de Joachim Carvallo, trata-se de um espaço formado por recintos, tais quais o das Crianças, com macieiras (Malus sp) e espaço para brincar; do Sol, na parte central, com uma lagoa ornamental em formato solar; e da Nuvens, com pequenos caminhos gramados que delineiam triângulos formados por roseiras e arbustos.

Como todo complexo clássico de jardins, não poderia faltar o labirinto. De carpa europeia (Carpinus betulus), baseia-se nos desenhos renascentistas e é o local ideal para relaxar após um longo passeio pelo Villandry.

*Reportagem publicada no Paisagismo & Jardinagem nº 118 (2012)

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