Experiências além-mar

Texto Lucie Ferreira

O município português de Caldas da Rainha, com quase 52 mil habitantes, se tornou uma espécie de polo do cake design. É lá que está sediada a Associação Nacional de Cake Designers (ANCD), entidade cujo principal objetivo é a promoção do desenvolvimento da atividade, divulgando e oferecendo cursos especializados. Fundada em 2009, conta atualmente com 380 associados, sendo a maioria portugueses, mas também tem membros do Brasil, da Argentina, da Espanha, da Inglaterra, da Itália, da Suíça, da Áustria e de Israel.

A presidente da ANCD, a chef de pastelaria Teresa Henriques, conta que a ideia de criar a associação surgiu quando foi convidada pela prefeitura a expor 30 bolos. “Pensei ‘por que não ter mais profissionais para divulgar essa arte, que até então estava escondida?’.” Com o convite veio a vontade de chamar especialistas estrangeiros para ensinar outras técnicas, abrindo a possibilidade para a troca de experiências, uma vez que cursos realizados fora do país são pouco acessíveis. Além disso, Teresa queria mostrar ao mundo que Portugal também faz trabalhos excelentes – e somente a união tornava isso possível.

A escolha dos cake designers para ministrar as aulas e os workshops começa com uma longa pesquisa, buscando aqueles que são considerados os melhores e com trabalhos diferentes. “Meu primeiro pensamento foi em relação à língua: é bem mais fácil aprender com quem fala o mesmo idioma. E no Brasil existem profissionais excelentes e com técnicas maravilhosas, que merecem ser revelados”, destaca a presidente.

Em seguida, o artista escolhido é convidado e os pormenores são negociados. “Gostaríamos que o Brasil também tivesse uma associação para tornar possível a troca de experiências mais profundas, para que os profissionais portugueses pudessem ser convidados a dar aulas no país”, sugere.

Padrinho brasileiro

O cake designer Djalmma Reinalldo, de Itajaí, SC, não foi apenas o primeiro profissional convidado pela ANCD para viajar a Portugal, como também oficializou a abertura da entidade. “Eles estavam realizando o primeiro Óbidos Cake Show, junto com o Festival Internacional de Chocolate de Óbidos, e queriam algum talento novo para fugir das tradicionais participações inglesas e norte-americanas, então aceitei o convite para passar dez dias no evento e ministrar algumas aulas. Como fui o primeiro professor a lecionar na recém-criada associação, fui convidado para ser o padrinho”, relata.

Do outro lado do Atlântico, Reinalldo pôde ensinar o estilo em gotas. “A receptividade foi muito bacana, pois nunca havia ministrado essa técnica e a maioria das pessoas nunca havia visto, mesmo porque nós a criamos e ainda era muito recente”, relembra. Em outubro de 2011, o profissional esteve no país pela segunda vez, também a convite da ANCD, para ensinar as técnicas utilizadas no livro Cake Design – Doçura Nunca É Demais.

Segundo Reinalldo, os cursos em Portugal costumam ter duração de três dias, sendo oito horas por aula, sempre trazendo prática e temas específicos. “Os portugueses são bastante extravagantes, pois adoram bolos altos, coloridos e tortos. O Brasil, por ouro lado, tem um trabalho mais básico, com cara de bolo mesmo, e apesar de ser um país vibrante e colorido, poucas pessoas arriscam investir em cores ousadas”, observa.

Além de Reinalldo, outros brasileiros estiveram no país a convite da ANCD, como Nelson Pantano, Lis Fonseca, Olavo Gonçalves e a dupla Vera e Camila Madeira. “Por incrível que pareça, com apenas dois anos de existência a ANCD é reconhecida mundialmente. Por isso, recebemos muitas propostas de profissionais querendo dar aulas em Portugal”, diz Teresa.

Troca de informações

As cake designers Camila e Vera Madeira, da L’art in Dolce, de São Paulo, SP, foram convidadas pela ANCD um ano antes do embarque. “A presidente da associação, Teresa Henriques, entrou em contato conosco e nos convidou para ministrar um curso 100% prático para cerca de 20 alunos por aula. Foi um desafio enorme, já que em São Paulo as aulas são para, no máximo, quatro pessoas”, relata Camila, que esteve no país com a mãe Vera em maio de 2011.

De acordo com Camila, cada participante do curso levava um doce de sua região para que as professoras experimentassem, já que não teriam tempo de visitar outros lugares. “Foi um carinho indescritível. Ficamos sete dias em Caldas da Rainha, sendo cinco de curso em tempo integral. Como em Portugal demora para anoitecer, quando a aula terminava, conhecíamos as regiões mais próximas e experimentávamos a gastronomia local.”

Assim como Reinalldo, a cake designer paulistana também notou as peculiaridades dos bolos decorados pelos portugueses. “Eles colocam mais elementos para enriquecer o trabalho. Víamos técnicas aprendidas com outros professores presentes na decoração que ensinávamos. Trabalhar com bolos esculpidos deixa a maioria da pessoas tensas justamente pelo medo de errar, mas sentimos que os alunos ficaram mais relaxados quanto a isso.”

E não são apenas os portugueses que têm a oportunidade de aprender com os brasileiros: o intercâmbio beneficia o desenvolvimento do cake design nos dois países. “Aprendemos muito em cada curso ministrado. Ensinamos a nossa técnica, assimilamos a deles e isso valoriza cada vez mais a profissão”, opina Camila. Para Reinalldo, contribui para o enriquecimento técnico e artístico. “Há muita troca de informações e estilos. E é sempre importante termos contato com tudo que é relacionado à arte, ainda mais com nossos irmãos portugueses.”

*Reportagem publicada na revista Cake Design nº 09 (2012) 

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