De fora para dentro

Semelhantes a um quintal privativo, os pátios internos privilegiam o verde e a criatividade arquitetônica

Texto Lucie Ferreira

Levar um pouco da natureza para a casa, arejar e iluminar o ambiente. Quando o assunto é pátio interno, profissionais de arquitetura e paisagismo são unânimes ao mencionar os benefícios do espaço para um projeto. Mas, para alcançar todas essas vantagens é preciso delimitar a localização e o tamanho. “O projeto paisagístico deve considerar, principalmente, a insolação e o porte das árvores para que não ocorram ‘conflitos’ futuros”, diz o engenheiro agrônomo e paisagista Alexandre Furcolin, do escritório que leva seu nome, de Campinas, SP.

Para a arquiteta e designer de interiores Evelin Sayar, de Santo Andre, SP, o local proporciona sensação de amplitude e facilita e melhora o convício social dos moradores. “Funciona como uma grande área social, provocando o encontro e a união da família e atuando como o centro nervoso da casa.” De acordo com a arquiteta Paula Sauer, do escritório campineiro Sauer / Homem de Mello Arquitetura, o pátio interno é uma ampliação da área social e integra o verde aos cômodos.

Além de funções técnicas, como ventilar e clarear os ambientes, representa um “pedaço de quintal”, mas no interior. “É como se não estivéssemos totalmente dentro. Numa residência de praia, dá a sensação de que tudo é um grande terraço e podemos viver quase do lado de fora, sob a brisa e junto à paisagem”, comenta o arquiteto Luiz Hopf, de Ilhabela, SP.

Contemporâneo

Uma árvore com mais de três décadas de existência foi o ponto de partida do projeto deste pátio em Campinas, SP. Assinado pelas arquitetas Paula Sauer e Roberta Homem de Mello, e pelo escritório Alexandre Furcolin Paisagismo, a distribuição dos espaços e o layout interno foram feitos em função da arbórea. “É uma casa contemporânea, onde a integração com o verde é a principal característica.”, destaca Paula.

Aproveitando o microclima criado pela projeção da grande árvore, o engenheiro agrônomo e paisagista optou por inserir espécies “amigas da sombra”. “Palmito-jussara (Euterpe edulis), dracena-confeti (Dracaena godseffiana) e forração de dinheiro-em-penca (Callisia repens) foram introduzidos, compondo um paisagismo similar a uma mata natural”, destaca o profissional.

O espaço divide a residência em dois pavilhões. No térreo, a parte da frente é uma área mais íntima, e a dos fundos abrange cozinha, serviços e lazer. “Ele traz o verde para dentro de casa, o que é sempre um privilégio. Luz, ventilação e beleza são sempre bem-vindas”, opina Paula. Para Furcolin, pátios internos permitem maior interação entre arquitetura e paisagismo, além de proporcionar conforto térmico à residência.

Para incrementar, ela indica apostar na iluminação, objetos decorativos e elementos de madeira – para o deque do pátio, a escolhida foi cumaru. Furcolin observa que, dependendo da arquitetura, bancos, fontes e outros elementos promovem interação.

Tropical

Localizada em Trancoso, BA, esta residência projetada pelo arquiteto David Bastos tem um pátio que funciona como porta de entrada. “Ele se comunica com toda a casa: sala, quartos e cozinha”, observa o engenheiro agrônomo e paisagista Alex Sá Gomes, responsável pelo paisagismo. Na área, o profissional inseriu palmito-jussara (Euterpe edulis), palmeira-licuala (Licuala grandis), filodendro (Philodendron sp), aglaonema (Aglaonema spp) e lírio-da-paz (Spathiphyllum wallisii). “São plantas para jardins internos, resistentes e que não tapam a visão entre os espaços.”

Na opinião de Sá, pátios internos são uma forma de trazer natureza e luz para dentro de casa, além de fazer a comunicação com os diversos ambientes. O projeto paisagístico deve considerar a arquitetura e a função desse espaço (circulação, contemplação, utilização…) e definir as variedades ideais.

Para incrementá-lo, Sá ressalta que é fundamental te uma boa iluminação natural. Além disso, trabalhar com água valoriza bastante o pátio. No caso deste projeto, o piso com ladrilho hidráulico enobreceu ainda mais a área.

Elemento-chave

Na sala de estar desta residência em Campos do Jordão, SP, a arquiteta e designer de interiores Evelin Sayar apostou na pereira (Pyrus communis) no centro da área. Ao redor, optou pela forração de pedra madeira – alternativa aos pedriscos, que são fáceis de serem remexidos pelas crianças. “Neste caso, a árvore traz um pouco da natureza da região para o convívio diário dos moradores, tornando o ambiente mais harmônico e relaxante”, conta.

O pé-direito altíssimo (12 m) possibilita a entrada de luz natural, elemento relevante em todo o projeto. Acima, a claraboia medindo 4 x 4 m, feita de policarbonato com estrutura de madeira, impede que o local fique à mercê das intempéries da natureza e evita o desgaste dos revestimentos.

O pátio liga todos os ambientes da casa, já que está na área central. “Ele conecta o living, a cozinha, os cinco quartos, dois lavabos e até mesmo a lavanderia. Todos os espaços fazem caminho por essa área”, ressalta Evelin.

Multiplicidade

No projeto de uma residência em Caraguatatuba, SP, Hopf incluiu três pátios internos. Segundo ele, esses espaços são fundamentais para a ventilação e complementam os ambientes, já que a morada é praticamente térrea e cobre uma grande área. “Eles refletem o espírito de informalidade que desejei em toda a construção: uma casa para andar de pés descalços. Não busco estilo pré-determinado, mas insisto na utilização de materiais tradicionais com desenhos contemporâneos e funcionais”, destaca o autor.

O pátio menor foi inserido próximo ao estar, emoldurando o cômodo junto com a vista para o mar. Os outros ficam na área dos dormitórios. Um deles é privativo e contempla clima de relaxamento e descanso, proporcionado pelo espelho d’água e a fonte balinesa. O social é uma extensão ajardinada das salas de refeição e de jogos e da cozinha gourmet, recebendo sol diariamente.

O engenheiro agrônomo Marcos Augusto Logrova, da Tok Verde Paisagismo, de Caraguatatuba, assina o paisagismo e considera os pátios complementos do ambiente, não devendo ser tratados como junções ou pontos cegos de um projeto. “A integração entre natural (biótico) e artificial (abiótico) faz com que todos os espaços sejam utilizados ou contemplados, justificando o investimento no jardim”, observa. Segundo ele, as espécies inseridas devem ser fisiologicamente compatíveis com as características do local (luminosidade, altura, drenagem e área).

Dentre as espécies utilizadas, Longrova cita agapanto (Agapanthus africanus), arundina (Arundina graminifolia), tapete-inglês (Persicaria capitata) e palmeira-fênix (Phoenix roebelenii), no privativo; lírio-da-paz (Spathiphyllum wallisii), orquídea-grapete (Spathoglottid unguiculata), grama-amendoim (Arachis repens), clorofito (Chlorophytum comosum), estrelítzia (Strelitzia sp), dianela (Dianella ensofolia), alpínia (Alpinia purpurata), aspargo (Asparagus densiflorus) e pacová (Phenakospermum guianensis), no social; e singônio (Syngonium angustatum), antúrio (Anthurium andraeanum), tostão (Callisia repens), pata-de-elefante (Beaucarnea recurvata), bromélia-fireball (Vriesea hybrida) e helicônias (Heliconia stricta e Heliconia bihai), no menor.

Para incrementar um pátio interno, Hopf sugere elementos que utilizou nesse projeto, como colunas de madeira, treliças de biribas de eucalipto, beirais entalhados e revestimento de pedras rústicas, que criaram o clima perfeito para a contemplação arquitetônica.

*Reportagem publicada na revista Paisagismo & Jardinagem nº 121 (2013)

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